Adolescente cinqüentão

25/02/2008 03h00

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, março de 2008 - ano 1 - número 12

Vamos viver 100 anos; por isso, é preciso reinventar o mundo

Um presente de grego; é assim que muitos recebem a notícia dos avanços técnico-científicos do prolongamento da vida. Ganhamos mais 30 ou 40 anos de vida participativa, inventamos o adolescente cinquentão.
Estamos frente a uma quebra de equilíbrio importante. Até bem pouco tempo, tudo estava acertado para se morrer por volta dos 70 anos. Aos 15 se decidia a profissão, aos 20, o casamento, aos 30, os filhos, finalmente, aos 60, a aposentadoria e os netos, com direito a cadeira na calçada, ao jogo de xadrez, de damas ou de tamborel. O tempo do fim da saúde se articulava com o fim do trabalho, que por sua vez se harmonizava com o tempo da herança e da substituição das gerações.
Agora, um desequilíbrio. O corpo está ótimo, mas a cabeça nem sempre; até já podemos produzir o atleta com Alzheimer. O mercado de trabalho precisa aposentar os mais competentes - que viram consultores –, empurrados pela fila de jovens genéricos que batem à porta. O avô - nem mesmo o pai – rouba a namorada do amigo do neto, enquanto o neto embarca nos prazeres da amiga da avó. A lista de exemplos prossegue, é longa e sensível a todos.
Frente ao fato inexorável: vamos viver 100 anos, urge reinventar o mundo, pois a solução de pôr o velho no asilo acabou. A perspectiva de uma vida centenária nos revela uma paisagem desconhecida onde temos que descobrir como nos orientar em novos caminhos.
Uma crise de insegurança, em tudo semelhante à descrita na juventude, acomete as pessoas da faixa dos 50. Hoje, quando esperavam ter chegado ao ápice daquela carreira projetada na mocidade, descobrem que o que conquistaram não tem mais o mesmo valor de mercado que tinha há 30 anos. O que sabem é passageiro, o que fazem pode ser obsoleto, o que acumularam não é suficiente, e ainda têm muito tempo pela frente. O que dizer da incompetência dos sistemas de aposentadoria em enfrentar essa longevidade? Resultado: chorar ou se reinventar.
O mesmo mundo mix descoberto pelos moços, no qual as coisas não são estanques, mas se interpenetram em associações inventivas e originais, vale também para os mais velhos. Dificilmente, no mundo de hoje, uma pessoa terá uma só profissão. Não há que se temer a quebra da identidade dita profissional, nem mesmo a social, por misturar competências diversas. A pessoa do século 21 deve ser alguém pronto a todas as circunstâncias, daí, necessariamente, flexível. Mas para sê-lo, o eixo da sua identidade não pode estar alienado a nenhuma situação, pois as situações são exatamente aquilo que muda depressa. A âncora, se assim pudermos chamar algo tão insólito, deixa de ser o que se tem, ou o que se conquistou, para ser o que se quer, o que se deseja. Fica a pergunta fundamental para esse velho moço: “Você quer o que deseja?”.

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Jorge Forbes
São Paulo, 25 de fevereiro de 2008