O erro é esperar sentido em tudo

25/11/2007 02h00

artigo de Jorge Forbes para o caderno Aliás do jornal O ESTADO DE S.PAULO, domingo - 25 de novembro de 2007.



Gilmar não tinha razão em sua fúria de posse. Forjou uma realidade não negociável nem com a amada.

Agora foi na Praia Grande. Até há pouco tempo, falávamos nos crimes inusitados que assustavam uma sociedade recém-globalizada pelos nomes dos seus autores: Suzane, Champinha, etc. Agora nos referimos pelo nome do lugar onde ocorreu: essa semana, Praia Grande. Em Belo Horizonte também se passou algo semelhante, mas foi menos noticiado. Esse tipo de crime já não é tão novidade, começa a ser habitual. O que varia é o local. Espantemos-nos se ainda for possível. Lá na praia, um motoqueiro desempregado chega à farmácia onde trabalhava sua ex-noiva, na hora do fechamento, à meia-noite, rende um outro funcionário e a ex, põe os clientes para fora e, por 11 horas - nas primeiras, os três juntos, e depois só o rapaz e a moça - desenvolve-se uma tragédia que termina com ela e ele, Evellyn e Gilmar, mortos, por tiros de um revólver dele, e algemados um ao outro.

A tragédia é recheada de elementos espetaculares, os quais, como o nome sugere, abrem alas para as mais diversas especulações: “ Nossa! Ele ficou bisbilhotando o Orkut dela, teve crise de ciúme e foi lá bêbado encerrar as contas.” “Nossa! Ele não se contentou em pôr o outro funcionário para fora, trancar as portas daquela pequena farmácia, saber que dali ninguém sairia. Não, ele ainda teve que algemá-la, para se assegurar de que estavam juntos.” “Nossa (comentário mais apurado): vemos aí o efeito do que acontece na indiferenciação do real com o virtual.” “Nossa! E no fim não é que foi ela é que caiu sobre ele, embora os tiros tenham sido dados por ele. Não é incrível?”

Muitas outras exclamações poderiam ser acrescentadas, relevando este ou aquele aspecto mórbido, em uma viagem ficcional de horror. Ah, como dizia Freud, às vezes um charuto é só um charuto. Parodiando-o, um crime é só um crime. Será que devemos chamar a isto de uma história de amor, de história passional? Será que ao fazê-lo não estaremos dourando a pílula da dureza da boçalidade humana? Imaginemos que podemos dizer que esse rapaz seguiu os conselhos de Virgílio, na Eneida: Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, “Se não puder dobrar os deuses de cima, comoverei o Aqueronte”. Ou seja, vulgarizando, se não vai por bem, vai por mal. Será? Virgílio foi a inspiração? Ou Virgílio teria se inspirado no motoboy de sua época, para discorrer sobre a fúria? Parece-me mais prudente diminuir nossa saga interpretativa, não só para não cairmos no ridículo absurdo, mas, e sobretudo, para que não nos acostumemos com o mal, como previu Hannah Arendt.

Diria que nosso problema está justamente aí. Nosso, de todos nós, do Gilmar, inclusive. Vivemos em uma sociedade que espera que tudo tenha um sentido, tudo possa ser cifrado, numerado, nomeado. É a sociedade do controle detectada por Gilles Deleuze. Nela, a ignorância de hoje é sempre vista como provisória. O progresso do conhecimento humano é alardeado como tendendo à onisciência, o que corresponde a que o progresso da técnica seja alardeado como onipotente. Um, o conhecimento, “faz saber”, outro, a técnica, “sabe fazer”, juntos montam uma miragem de mundo no qual para tudo há remédio. Poucos se lembram de que não existe grande problema que a falta de solução não resolva. No mundo do para tudo tem remédio, cerca elétrica, barreira digital, vidro blindado com escuridão legalizada, neste mundo a angústia fundamental do humano, o que o diferencia singularmente entre todas as espécies de animais, a angústia de ser um ser de linguagem, e por isso indeciso, incompleto, essa angústia passa a ser vista como doença, pois... para tudo tem remédio. Nesta ideologia, vírus do atual laço social, se para tudo tem remédio, tudo é possível, não há limite, não há o impossível. No mundo do tudo é possível, as dificuldades são vividas com revolta, e não, como melhor poderia ser, como um apelo a uma criação inventiva. A possibilidade generalizada é perigosa. É a base da equação, muitas vezes assassina, assim formulada: se o que eu quero me é de direito, e se eu o não tenho, logo eu o tomo por bem, ou por mal.

Gilmar não tinha razão em seu rompante furioso de posse. Isso nos é evidente a todos. Ele forjou uma realidade só dele, não negociável nem com sua amada nem com seus familiares nem com a polícia. Ele e sua razão alcoolizada foram soberanos. Mas, guardando a abissal proporção que os separam, também os espectadores dessa tragédia devem se guardar de tudo quererem entender. Se, para Gilmar, era impossível suportar o desamor de Evellyn, para a sociedade é quase impossível suportar a incompreensão do gesto assassino de Gilmar, que resiste às conhecidas, e muitas vezes verdadeiras, mas não suficientes, interpretações sociais e de gênero masculino e feminino. E, no entanto, é necessário suportarmos o impossível de tudo compreender. Freud explica - Freud explica que nem tudo é explicável, que nem tudo é controlável, que angústia não é doença, mas tal qual o colesterol, tem a ruim e a boa, e não se vive se a eliminarmos com falsas promessas de para tudo tem remédio. Sua eliminação, da angústia, nos torna boçais, como dito.

Sobre o crime de Praia Grande, amanhã, infelizmente, será jornal envelhecido e substituído por outra cidade. O momento é chegado, já estamos atrasados, de darmos um basta ao conforto ilusório e preguiçoso de uma sociedade tão medicalizada - para tudo tem remédio - quanto irresponsável em sua cidadania. Sim, a sociedade de controle, ao pregar que tudo tem nome, que tudo pode ser entendido, nos deixa preguiçosos frente a nossas diferenças com o outro. Não só a angústia é vista como uma doença, mas também quem é diferente de mim, quem não me quer, ou quem eu não quero. Nessa sociedade onde tudo tem nome, a pergunta de Chico e Milton - “O que será, que será, que nunca tem nome, nem nunca terá?” não é respondida, ela é calada. Em uma sociedade onde os poetas são calados, onde o impossível não tem lugar, aí, aqui, estaremos condenados à dura boçalidade de nossa espécie esvaziada.