Está tudo bem, muito bem

23/05/2012 02h07

Jorge Forbes

       

        Tudo ruim.

        Uma doença neuromuscular que mata em média antes dos trinta anos. Associado à sua paralisia progressiva de braços e pernas, típica da síndrome de Duchenne, ele, que já não anda mais, ainda tem osteoporose e alterações cardíacas.  Seu pai morreu há poucos meses. Resultado, depressão. Foi demais.

        Sua mãe explica, para mim e para ele, que ela conhece bem a doença e sua morte. Teve três irmãos, todos com Duchene, todos mortos. Um deles morreu no mesmo dia em que Cristóvão nasceu. Luiza, a mãe, chama isso de presente de grego. Isso o que? A morte do irmão ou o nascimento do Cris?

        Está tudo bem, muito bem. Estava um pouco triste, agora tudo bem. Estou pensando até em voltar a trabalhar, explica. Sabe que não convence, nem a si mesmo. Mas quer se convencer, precisa se convencer. Dormir está difícil, o bipap, respirador artificial, incomoda. Ele já entendeu, está tudo bem. Mas com bipap, sonhar é difícil.

        Mais uma pergunta e ele desabaria. Você é eternamente responsável pela crise que você provoca, teria dito Saint Exupéry a um psicanalista pronto a uma interpretação.

        Não há chance para Cristóvão. Agarra-se no tudo bem. Acuado no canto exibe seu último escudo protetor: tudo bem, tudo bem. Como encontrar uma brecha, um momento de passagem, momento de ficar no ar entre uma apara e outra? Mesmo quando a morte vem em turma: seu corpo, três tios, alguns primos e mais, ainda sobra uma incerteza salvadora. Cristóvão mostra a abertura que o bom senso já teria trancado. Nada a compreender a não ser constatar. A não ser analisar, não sintetizar. Cristóvão quer trabalho, nós vamos trabalhar.

        Luiza, já sabe todos os nomes da morte, são todos nomes íntimos. Mário, João, Ernesto. Mas chamar urubu de meu loiro, não afasta o urubu. Cristóvão não aguenta mais Luiza. Luiza não aguenta Luiza. Ela também vai se tratar.