Não procure, ache!

22/01/2014 12h17

Jorge Forbes

Mais uma vez, os planos! O relógio da esperança, rodados mais 365 dias, pede que lhe seja dado nova corda. E aí recomeçam as tabelas dos desejos politicamente corretos, todos girando em torno às necessidades ditas básicas: trabalho, saúde, educação, família e entretenimento, palavra horrível para dizer diversão.

Temos o Natal, para corrigir o ano que passou, e ganharmos o que não realizamos, e logo em seguida o Ano Novo, para prometer o ano que virá. É uma semana dedicada ao reequilíbrio total, tempo de férias coletivas das ansiedades, pois tudo fica certo, embora um tanto quanto chato, quando corrigimos o passado e comprometemos o futuro. Duro, com essa estratégia, é aguentar as outras 51 semanas. Vai ver que por isso 51 virou nome de cachaça.

Ao contrário dessa perspectiva de limpar o passado – se Papai Noel te trouxe bons presentes é porque você foi bonzinho,  argh! – e de arrolhar o amanhã em promessas desconfiadas, temos a possibilidade de melhor suportar as surpresas, os encontros do dia a dia. Surpresa não se planifica, é óbvio, mas da atitude frente a ela que possibilita ou impede que algo novo se dê, dessa podemos falar.

O psicanalista Jacques Lacan dizia para você mais olhar os pés de suas pessoas queridas, que aquilo que lhe é dito por elas. Os pés são mais efetivos que os ditos. E por que é assim é que tal qual os GPS vivemos corrigindo nossas rotas. Saio para o trabalho, encontro um amigo, corrigindo rota. Vou tomar um cafezinho com ele, corrigindo rota.   Chego atrasado, mudo a reunião, corrigindo rota. Fiquei livre para fazer o que não tinha tempo, corrigindo rota. E assim por diante, já deu para entender.

Estar aberto ao inesperado não siginifica de jeito nenhum se transformar em pau de enxurrada, aquele que vai se enganchando em cada acidente da correnteza, igual a quem não consegue se despedir e quando já está vindo para pouso arremete seu aviãozinho em nova conversa, não. Estar aberto ao inesperado diz de uma posição subjetiva de poder reconhecer, no sentido de legitimar, que coisas muito importantes na vida acontecem apesar de nós e dos nossos planos, e nos interpretam. Interpretam, pois quando topamos com elas e a elas dizemos sim, aí, ao achar é que se revela o que estávamos procurando.

Duas posturas, portanto, frente ao novo ano: servir-se dele para realizar suas decisões de hoje, ou se valer dele para se achar em seus desejos, mesmo que só de vez em quando.

A escolha é sua, os votos são meus: Feliz Ano Novo!

(artigo publicado na revista Gente IstoÉ - dezembro de 2013)