Os pais estão durando muito

28/02/2015 21h01

Jorge Forbes

 

De novo o Natal e as mesmas discussões: onde passar a noite do 24? E o almoço do 25? Por vezes essas dúvidas acabam em brigas das famílias e chegam a equivaler em importância com as decisões sobre a educação dos filhos.

Em uma certa família, o argumento do velho pai era sempre vencedor quanto ao convencimento dos filhos e seus pares a virem passar a noite do 24 em sua casa. Ele usava a desculpa do “meu último Natal”. – “Esse ano – dizia ele – vocês venham aqui para minha casa, com todos os seus, pois, tenho certeza, esse será meu último Natal”.

Seu filho mais velho chegou a reclamar duramente com o pai, acusando-o de enganar a todos, uma vez que nunca cumpria a promessa feita daquele ser o último, fazendo invariavelmente de sua casa o centro da noite festiva.

Pois é, estamos na época em que pais duram muito, muito mais que antigamente. E isso pode ser um problema o ano inteiro, não só em dezembro. Até há bem pouco tempo, trinta ou quarenta anos, na organização familiar, os processos de identidade eram linear e progressivamente estruturados. As pessoas chegavam ao auge da maturidade e do sucesso na década de seus cinquenta anos, envelheciam aos sessenta, e morriam aos setenta. Seus filhos vinham caminhando em fila indiana logo atrás, cumprindo os rituais das heranças que vão bem além do aspecto econômico. Eles iam herdando o poder; a casa, os objetos, a mobília, o carro; a fama; a respeitabilidade, enfim, iam se legitimando como proprietários titulares do sobrenome, relegando os pais à memória.

E hoje? Bem, hoje, como dito, os pais duram muito. Pais e filhos discutem com o mesmo entusiasmo seus novos projetos. Temos adolescentes aos quinze, vinte anos, e temos também o adolescente cinquentão. O que era progressivo e linear se transformou em concomitante gerando novos tipos de conflito entre as gerações.

Um aspecto pode ser posto em destaque como símbolo dessa mudança: o declínio do pai provedor. No imaginário popular, pai e mãe é aquele que provê. Provê atenção, ensinamentos, segurança, saúde, e, claro provê dinheiro. Pai é quem paga a conta e por isso comanda, assim se pensa. Surge, então, uma nova ansiedade: como ser pai sem ser o provedor? No que se sustenta a característica de pai e mãe quando o papel de provedor fica sem sentido dado o status conquistado pelos filhos?

Podemos achar a resposta na sabedoria popular quando afirma:     - “Um pai faz dez filhos, dez filhos não fazem um pai”. A ser isso verdade, é na esfera do amor que se resolve a equação da paternidade. O amor dos pais é o amor que suporta a diferença ou a igualdade dos filhos, amando-os bem além dos bons ou dos maus motivos. Qualquer semelhança com o que se comemora no Natal não é pura coincidência.

 (artigo publicado na revista IstoÉ GENTE - novembro de 2014)