Para uma nova bússola

11/05/2011 15h18

por Jorge Forbes

 

 

            Há sete anos, em Comandatuba, tocado pelas questões clínicas que o título deste IX Congresso da EBP hoje nos reúne, “Os limites do simbólico na experiência analítica”, apresentei uma reflexão de nome: “A Psicanálise do Homem Desbussolado - As reações ao futuro e o seu tratamento”.

            Ali, foi questão de, primeiro, reconhecer e legitimar uma mudança paradigmática no laço social que nos leva a estar em uma nova civilização, na qual nenhum dos seus aspectos fica, a partir daí, o mesmo. Muda a pessoa, do nascimento à morte: como ela é concebida, como é educada, como estuda, como constitui família, como ama, sofre e se diverte, como trabalha, como se aposenta, se é que ainda o faz, como escolhe – é bem o termo – enfim, como escolhe morrer. Mudam também as empresas, as nações e suas formas de governança.

            Segundo, foi importante dar uma resposta psicanalítica, diferente das econômicas que se adiantaram em teorizar a globalização, sobre a raiz desse fenômeno. Destacamos dois aspectos: um, a queda de verticalidade da arquitetura do laço social, decorrente da relativização do saber do Pai e de seus representantes, causada pela revolução da informação; o outro, os avanços tecnológicos criaram uma situação inusitada ao homem, a saber, agora podemos fazer mais coisas do que queremos, logo, temos que escolher no risco.

            Terceiro, notamos como foram as reações frente à limitação do poder simbólico de nossa tão iniciante era. De início, tudo parecia se transformar em festa, dada a euforia da desamarração simbólica. Durou pouco, logo veio uma epidemia de angústia que fez as pessoas recuarem a portos supostamente seguros: de um lado, as neo-religiões, do outro, os livros de auto-ajuda e a medicina que se acredita baseada em evidências – e não em relatos – com sua ideologia equivocada de que na vida tudo tem remédio.

            Quarto. Frente a este novo estado de coisas, uma nova psicanálise era necessária, uma segunda clínica, que ao invés da primeira, aquela da prioridade do Freud explica, mudasse o alvo para o Freud implica. Implica independentemente da compreensão, do significante a mais da associação livre, implica no corte de uma sessão, no significante a menos, na precipitação do tempo, o que indica que a conclusão não decorre do ter mais e mais tempo, mas de uma decisão precipitada, necessariamente criativa. Tal qual Gaudi, que deixou uma catedral inacabada – o templo da Sagrada Família, em Barcelona - sobre cujas plantas os arquitetos se debruçam para entender a continuação, também Lacan nos legou uma Clínica inacabada do Real, sobre a qual nos debruçamos, como nesse congresso, para ver como dela nos apoderarmos na constituição de uma clínica para o século XXI.

            Esses quatro pontos me parecem ainda de absoluta atualidade, estamos longe de termos esgotado seu estudo e consequências, imagino que nosso congresso o demonstrará.

            De minha parte, limito-me aqui a relevar um aspecto que tem me interessado nesse momento: existirá uma transcendência não religiosa, portanto leiga, possível ao homem? Explico-me. O tema da transcendência é diretamente vinculado ao tema da bússola, do estar ou não orientado. O que me parece mais fascinante nessa época em que vivemos é que pela primeira vez não temos uma transcendência explícita que marque o Norte a uma espécie humana prematura, como está presente em Lacan desde o início de seu ensino. Incompletos biologicamente, o que nos distingue de todos os outros animais; único ser que fala, o porquê de não nos entendermos; sempre nos valemos em nossa história de um valor superior e fora de nós como guia. A concordarmos com Luc Férry, no livro “A revolução do amor”: primeiro, para os gregos, era o cosmos, o que quer dizer a lógica da natureza, que balizava a vida humana. Cada um devia ocupar o seu lugar previsto na ordem natural das coisas - o senhor, o do senhor; a mulher, o da mulher; o escravo, o do escravo. A leitura de Aristóteles põe qualquer feminista de cabelo em pé, ao ler que a mulher é naturalmente submissa ao homem e outros que tais. Justiça era se ajustar ao seu lugar marcado. Em seguida, surge a transcendência religiosa. Frente ao deus, todos seriam iguais, o que é uma mudança importante, mas que não altera o fato de vir de fora e de ter uma qualidade superior. Depois, o Iluminismo, e com ele, onde estava o deus foi entronada a razão. Também aí, o paradigma vertical não mudou. Seguiu-se o século da desconstrução, o século XX, no qual parecia não haver transcendência que subsistisse às críticas de Nietsche a Deleuze. E, no entanto, penso ser interessante notar que a identificação ao sintoma, uma das formas pela qual descrevemos atualmente o final – objetivo e fim – de uma análise, é um exemplo de transcendência da imanência. Uma transcendência que rompe com as anteriores por não vir desde algo fora, superior e universal.

            Fazer uma análise nos leva a depararmos com a impossibilidade de nos safar do estranho familiar, como Freud o chamou, dessa extimidade, como Lacan descreveu, que somos nós próprios, no limite do simbólico, sempre insistindo no tema de nosso congresso. O mais íntimo de nós mesmos se explicita no confronto com o outro, especialmente o “outro” analista. É a nova bússola, possivelmente. Ela não se explica, ela se mostra, daí entender com Miller, em seu curso de 2010, a dimensão de show, no passe.

            Temos indicações desse compasso em Lacan, quando ele fala sobre o ponto de vergonha que uma análise deve tocar. É uma vergonha além da vida biológica. Exemplo: vimos uma mulher que visitava o túmulo de seu pai no cemitério vazio. Ela assiste dois policiais matarem um homem friamente, em julgamento dos próprios revólveres. Não teve dúvida: na frente desses homens, que só aí a notaram, ligou do seu celular para a Polícia Militar e contou o ocorrido. E mais, ao invés de se deixar ser abordada, foi ela quem abordou os assassinos perguntando o que estavam fazendo. Louca? Não, claro que não. Só alguém possuída por sua vergonha pode reagir além do banal sobreviver, do salvar a própria pele. Fica em mim a vontade de imaginar que esses policiais não a mataram por terem sido surpreendidos visceralmente por uma nova lógica do laço social que não vai da impotência para a potência, mas da impotência para o impossível.

              A mulher do cemitério, cujo pai morreu, se orienta hoje, além dele, por algo mais forte que ela – uma extimidade - mesmo que isso a assuste no ao depois.

 

Tiradentes, 29 de abril de 2011