Quando Começa a Vida?

01/07/2007 03h00

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, maio de 2007 - ano 1 - número 2

“Quando começa a vida”? Até hoje, respondíamos das mais diversas maneiras, com a despreocupação dos inconseqüentes. Isso mudou. As pesquisas com células-tronco embrionárias, que apontam para imensos recursos terapêuticos, exigem um mínimo acordo sobre o momento inicial da vida humana. Vida humana, disse, e não só vida, pois desde que uma célula esteja em movimento, em modificação de seu estado, há vida. Mas a vida humana, como precisar o seu primeiro momento? As variadas respostas indicam suas dependências aos pontos de vista adotados. Não há um consenso. As respostas mais comuns são que a vida humana começa: a)No momento da fecundação, quando um espermatozóide penetra um óvulo e seus núcleos se combinam; b) Quando se atinge a formação do sistema nervoso, suficiente para seu funcionamento autônomo, entre o terceiro e o quinto mês de gestação; c) No momento do nascimento, ao se cortar o cordão umbilical; e ainda d) Quando o ser tem condições de fazer os primeiros registros de memória, reagindo ao aparecimento e desaparecimento de uma pessoa próxima – o chamado “sinal do espelho”.
É fácil constatar que “quando começa a vida” é uma data dependente de uma convenção, não de uma prova científica. Salvo a primeira idéia – a do momento da concepção –, bravamente defendida por grupos religiosos militantes, os outros segmentos sociais não têm dificuldade de acordar que o mais cedo que a vida humana começa é com a autonomia do sistema nervoso central. E isso porque já é de boa aceitação que a morte é, em nossa sociedade, definida pelo oposto, a saber, pelo parada de funcionamento do sistema nervoso. Aí, nesse momento, coração bate, pulmão respira, estômago digere e, no entanto, há vida, mas não vida humana – razão que possibilita a fundamental doação de órgãos.
Por que não nos é claro o oposto? Se um corpo inteiro funcionando está morto com a parada do cérebro, como um conjunto de quatro a oito células indiferenciadas, fora do organismo, in vitro, pode ser chamado de vida humana, e seu uso terapêutico, de assassinato de indefesos? Provavelmente pela persistência de idéias no céu dos insensatos, distantes da razão dos humanos que não faz do sofrimento provação divina e espera alívio dos tratamentos revolucionários proporcionados pela pluri-potencialidade das células-tronco embrionárias.

PS: estive no Supremo Tribunal Federal, quando seus juízes ouviram cientistas de posições opostas. Duas notas que dispensam comentários:

  1. De uma cientista: - no zigoto de Mozart, já estavam escritas suas sonatas; no de Drummond, seus poemas.
  2. Do ex-procurador geral da República, autor da Ação Direta de Inconstitucionalidade do uso de células-tronco embrionárias em pesquisa e em terapia: - A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato.