Reencontros

19/05/2013 03h22

Jorge Forbes 

Existem duas maneiras básicas de reencontros: o reencontro do mesmo e o do diferente. Reencontro do mesmo é querer sempre encontrar as mesmas coisas, no mesmo lugar, no mesmo jeito. É querer que o tempo não passe, que as ideias não mudem, que os desejos se apaguem. É querer ter um mundo de garantia no qual a aspiração do futuro é ser o passado, é ver o mundo pelo espelho retrovisor.

Reencontro do diferente é buscar na repetição o novo, o não visto, o não vivido. É o impacto que vem das situações não necessariamente novas, posto que reencontro, mas que não se esgotam em sua capacidade de surpreender. São assim, por exemplo, as obras clássicas. Vemos muitas vezes um quadro de Van Gogh e sempre nos surpreendemos. Ouvimos várias vezes uma sinfonia de Beethoven e nos transcendemos. E também pode ser quando encontramos sempre aquela pessoa amada, que nos é sempre enigma, para quem buscamos palavras para expressar nosso amor e nos falta.

O reencontro do mesmo é triste, pouco criativo; é o reencontro do inseguro, da covardia. Ele gerou frases conhecidas, até simpáticas, tais como: “Em time que está ganhando não se mexe”. O reencontro do diferente, ou da diferença, é ousado, inventivo. É o reencontro com algo que sempre escapa, é um reencontro que pede novas descrições, onde tudo parecia evidente.

A canção composta por Isolda, eternizada por Roberto Carlos - “Outra Vez” - soube tocar no fundo da sensibilidade brasileira. É um dos bons exemplos, no nosso cancioneiro, de um reencontro do novo. Nela, “Você é a saudade que eu gosto de ter” é o verso que ninguém esquece. Nota-se o jogo do presente com o passado. “Você é” está no presente, enquanto “saudade” remete ao passado. Por que emociona? Porque o desejo é nostálgico, costumeiramente temos a impressão de que “éramos felizes e não sabíamos”, daí valorizarmos o que nos provoca saudade. Encontrar alguém que nos acalente com saudade parece paradoxal, mas não é não. Agradecemos quem possa nos fazer isso. Melhor, amamos quem nos permite esse tipo de reencontro. Reencontro que alude ao passado, mas inventa o futuro. Exatamente porque a nostalgia é vazia, é uma paixão triste, vem a resposta: “Resolvi te querer por querer”. O que está em jogo é um dizer “sim, eu quero” intransitivo, sem passado e sem futuro. Mesmo que um seja fonte e o outro seja alvo. É uma confiança na flexibilidade inventiva do presente, o que transforma “O mais complicado, no mais simples para mim”.

“Você foi o melhor dos meus erros” é uma declaração de que o que queremos reencontrar não é a verdade lúcida, mas a “mentira sincera” – Lacan concordaria dizendo que no final da análise se alcança a “verdade mentirosa”, vejam só.

“E é por essas e outras que minha saudade faz lembrar de tudo outra vez”. Precisa ainda explicar, ou já está sensivelmente claro? Se precisar, a compositora conclui em receita: “Só assim sinto você bem perto de mim outra vez”. Outra vez e outra vez e mais ainda outra vez, em reencontros que são as brincadeiras mais sérias que a alguém possa ocorrer.

 

(Publicado em GENTE IstoÉ – abril 2013)