Sem compaixão

02/11/2007 03h00

Jorge Forbes - artigo publicado na revista Welcome Congonhas, Novembro de 2007 Ano I, edição nº8

Algo melhor a propor? Solidariedade – com articulação das solidões

Compaixão é vício ou virtude? Essa pergunta parece uma provocação. Quem ousaria dizer que é um vício, quando a boa moral a tem entre as mais enaltecidas virtudes? E, no entanto, esse debate não é novo: Rousseau defende a compaixão ardentemente, Nietzsche a declara vício que atrasa a humanidade: “O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão”.

Não entremos no debate filosófico, vamos às ruas, de onde esse debate surge, e façamos uma experiência afetiva. Ao sermos apresentados a uma pessoa, conversemos com ela por uns 15 minutos e, ao nos despedir, digamos da simpatia que nos provocou conhecê-la Depois, façamos o mesmo com outra pessoa, semelhante à primeira, só que no momento da despedida, no lugar de confessarmos nossa simpatia, digamos que ela nos causou forte compaixão. Em qual dos casos a pessoa reagirá melhor? É evidente que será no primeiro, o da simpatia. Dizer para alguém que lhe temos muita compaixão é quase ofensivo. “Simpatia” vem do grego; “compaixão”, do latim. Será que no momento da latinização do primeiro termo, ele foi filtrado pela ideologia judaico-cristã, passando a palavra “compaixão” a carregar o aspecto de piedade que “simpatia” não tem? É uma hipótese bem razoável. Na simpatia, uma pessoa se confraterniza diretamente com a outra; na compaixão, ela se confraterniza em um lugar terceiro, através de um elemento em comum, seja a natureza humana, seja a filiação religiosa, como os irmãos em Cristo ou em Abraão. Na simpatia, sente-se com o outro, não exatamente a mesma coisa; enquanto na compaixão, não se sente, mas entende-se o sentimento do outro, normalmente um sofrimento, porque isso também poderia lhe ocorrer. E, se ocorreu com o outro, e não com o compadecido, é porque o outro foi “escolhido”, daí a piedade.

Esse aspecto se evidencia quando uma pessoa adoece gravemente em uma família. O doente fica mal, porém acariciado; os outros da família ficam bem (embora discretamente envergonhados). Médicos e demais profissionais de saúde tendem ao mesmo tipo de comportamento piedoso. É conhecido o caricato exemplo de uma enfermagem que se acha carinhosa por chamar o paciente idoso de “vozinho”, falado em tom melancólico-doce, com o máximo de diminutivos possíveis: “O vozinho quer agora tomar a sopinha bem quentinha?” Algo melhor a propor? Sim, solidariedade. Solidariedade no sentido de articulação das solidões. Podemos estar com alguém para dividir um prazer, um interesse, ou porque esse alguém nos toca, sem maior explicação; é o sentimento básico da amizade, da simpatia, fundamental para os tempos em que vivemos, de individualidades desgarradas. Não é necessário ter pena – sempre discricionária – de alguém para se estar junto. Menos compaixão, mais simpatia solidária, faz a vida melhorar a pena.