Vasectomia e Demência

15/10/2007 03h00

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, otubro de 2007 - ano 1 - número 7

Vasectomia aumenta o risco de demência, e isto não é uma piada pronta. Aconteceu nos Estados Unidos: um homem procurou o serviço de doenças cognitivas, ou seja, as que afetam o raciocínio, do serviço de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Northwersten, de Chicago. Era relativamente jovem, 43 anos, e apresentava dificuldade em achar as palavras ao contar uma história. Perguntado pelo médico que o atendeu desde quando tinha notado esse sintoma, respondeu, sem hesitar, que isso havia começado depois de ter se submetido a uma vasectomia. O médico não achou que era uma piada, pensou que poderia ser verdade, veremos por quê.
Primeiro, o diagnóstico. O que se constatou é que o paciente sofria de um tipo de demência chamada de Afasia Progressiva Primária (APP). É uma demência diferente da conhecida e temida Alzheimer. Enquanto nesta o sintoma mais evidente é a perda da memória, na APP o que se destaca é uma perda gradual da capacidade de linguagem. Pois bem, o médico pôde aceitar a hipótese do paciente por ter lembrado que existe uma proteína de nome TAU, que só é encontrada em dois lugares no organismo, no cérebro e no esperma. Alterações no metabolismo dessa proteína estão na base da demência afásica. Ocorre que pacientes vasectomizados apresentam com freqüência uma queda da barreira hemato-testicular, levando de 60 a 70 % desses homens a desenvolverem anticorpos anti-esperma. Por uma reação cruzada, esperma-cérebro, esses anticorpos atacariam a proteína TAU cerebral, aumentando o risco da demência APP.
No estudo que se seguiu ao atendimento desse caso, capitaneado pela Dra. Sandra Weintraub, com a colaboração do conhecido Marsel Mesulam, e publicado em dezembro passado, 40% dos homens com diagnóstico de APP confirmaram terem feito vasectomia, o que é um alerta. Ainda faltam dados que possibilitem conclusão mais segura, especialmente uma amostra significativa de quantos homens operados desenvolveram APP; é o que se está buscando. Mesmo assim, desde agora, essa descoberta se junta a outros exemplos que relativizam a crença cega na manipulação corporal cada vez mais em voga nos adeptos de uma cosmiatria - nome novo para o casamento da medicina com a cosmética - nascente.
Note-se que anticorpos anti-esperma também podem surgir em homens não vasectomisados, por mecanismo não de todo conhecido, o que explica a ocorrência desses anticorpos também em mulheres.
Moral da história: enganam-se os defensores de uma medicina asséptica idealmente limpa da subjetividade humana, sem risco, onde a felicidade seria um dado previsível de laboratório. Mais uma vez constatamos a verdade enunciada na frase do psicanalista Jacques Lacan: “Da nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis”.