Comentário de Ariel Bogochvol sobre o XV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

16/07/2009 18h44

Realizou-se em Salvador, nos dias 12, 13 e 14 de novembro, o XV Encontro do Campo Freudiano intitulado “A Angústia: do que se trata?”

O Encontro reuniu 630 pessoas, expôs 70 trabalhos, promoveu o debate clínico, epistêmico, ético e político, e apresentou os modos de abordagem lacanianos da angústia. Produto de um trabalho coletivo realizado em suas Seções e Delegações durante um ano, representou mais um avanço no movimento de implantação, consolidação e expansão da Escola no Brasil.

Os tons festivos e triunfantes que caracterizaram o ‘balanço’ assinado pela Presidente da EBP, pelo Diretor da EBP e pela Diretora do evento e publicado em Veredas no dia 19 de novembro, não devem obscurecer o fato de que a angústia persiste com sua inquietante estranheza em nosso campo. Há algo que escapa, que não pode ser absorvido pela instituição e que assinala que nem tudo vai bem.

A grande festa de encerramento anunciava: “bye, bye, angústia”. Bye, bye angústia? As teorias freudianas e lacanianas são contraditórias em si e entre si e não podem ser consideradas um sistema explicativo fechado. A repetição das mesmas referências – o Seminário X de Lacan e o comentário de J.-A. Miller – e as variadas digressões sobre os aforismos transmitiram a idéia de que existiria uma nova doutrina da angústia já estabelecida e resolvida.

As proposições lacanianas do Seminário X, surpreendentes e problemáticas, tornaram-se os novos paradigmas (por ex., a relação da angústia da castração com a tumescência ou detumescência do órgão viril). Formou-se um consenso em torno de alguns temas, o que retrata mais a convergência das referências do que o produto da investigação crítica sobre as mesmas, com o risco implícito do dogmatismo e do hermetismo.

Notou-se a ausência de outras referências que confrontassem ou contradissessem as teorias psicanalíticas, como as teorias das neurociências. A perspectiva interdisciplinar ou transdisciplinar teria favorecido o diálogo da psicanálise com os discursos contemporâneos e forçado os psicanalistas a apresentarem suas razões para além de seus pares, superando o solipsismo.

Em seus dois Seminários, Graciela Brodski retomou o desenvolvimento da problemática paterna em Freud e Lacan. Suas conclusões não foram debatidas: o declínio da função paterna na contemporaneidade estaria associado mais a um declínio da capacidade de amar, de fazer de uma mulher a causa de seu desejo, do que da perda dos ideais, referências e das identidades verticais. Será?

Necessário avaliar a repercussão do Encontro na cidade, no estado, no país. Há, em torno da angústia, um grande debate e um grande combate, em que a psicanálise aparece como derrotada, criticada permanentemente na imprensa, na ciência, como letra morta de um passado a ser esquecido. O Encontro pôde, de alguma forma, interferir no senso comum?

Para além das celebrações e comemorações, a angústia permanece como um sinal do real no coração da Escola, devendo mobilizar e orientar seus trabalhos e impedir sua acomodação.