Seminários da Feiticeira

17/07/2009 18h46

 “de como o moderno virou passado e o presente perdeu o futuro – um encontro sobre a pós-modernidade”

Ilhabela, Praia da Feiticeira, 20 a 22 de agosto de 2004.

Gilles Lipovetsky, convidado por Jorge Forbes, chega a Ilhabela no entardecer da sexta-feira, 20, para participar do segundo seminário da Feiticeira: um encontro de “profissionais do incompleto”, pensamentos diversos dispostos a responder à atualidade, sempre com o futuro em vista. Trinta e três interlocutores - psicanalistas, juristas, filósofos, jornalistas - em um debate provocado por Tercio Sampaio Ferraz Junior, Jorge Forbes e Chaim Katz. Foram três reuniões, intermediadas de conversas em outro tom, mas no mesmo tema, à beira mar, na casa de Sonia e Tercio Ferraz.

Hipermodernidade

Nessa noite de sexta, Jorge Forbes, a partir da clínica psicanalítica, abre a conversa com uma reflexão sobre a nossa era: perdemos a orientação paterna na constituição das identidades, a ordem social não é mais organizada verticalmente, pela hierarquia. Há um novo laço social e novas categorias de pensamento são necessárias. Gilles Lipovetsky as propõe. A hipermodernidade, lê Forbes, apresenta a quebra das referências com suas duas conseqüências: a responsabilidade frente ao desejo, ou a angústia devastadora e o recrudescimento do controle social.

Nesse novo laço, a liberdade passa a ser o limite da própria liberdade, desenvolve Forbes, exemplificando com o que ocorre a um analisando em associação livre: inicialmente pensa que a liberdade fará com que fale de muita coisa, a ponto de se perder. O que a experiência mostra não é isto: em muito pouco tempo, o analisando se surpreende que, embora possa falar de qualquer coisa livremente, acaba por reiterar certos pontos. A liberdade de um não termina onde começa a do outro, como queriam os iluministas, mas sim, na ausência de um agente ordenador externo às relações, “a liberdade de um começa onde começa a do outro”.

Essa frase está no livro “Estudos de Filosofia do Direito”, de Tercio Ferraz, citado por Forbes, que o articula com o livro de Lipovetsky recém-publicado no Brasil, “Metamorfoses da Cultura Liberal”: há relações nas quais “a liberdade pára a liberdade” (p.48).

Com a palavra, Lipovetsky conta como modernizamos a modernidade e tornamo-nos hipermodernos. Hipertrofiamos, nos últimos cinqüenta anos, mais que nunca, o individualismo. Nosso tempo, diz ele, é de uma busca do sensual, do prazer, do bem-estar. Não se trata de simples consumo, não somos manipulados pela imprensa, pela publicidade, como marionetes. Somos influenciados por ela, mas somos “consumidores inteligentes, reflexivos”.

Nos séculos XVI, XVII, XVIII, a modernidade fundava o individualismo dentro do coletivo, na proposta de igualdade, que se fez discurso especialmente na política, sobre o sexo, na economia. Esse modelo avançou até o século XX, com seus poréns: entre as democracias, permaneceram projetos totalitários.

Após os movimentos de liberação das décadas de 60 e 70, no entanto, a sociedade assumiu a sedução dos objetos, dos lazeres e das imagens, transformou a relação de aquisição para uma maior particularidade das escolhas. Modernização, à escala do “hiper”. Está morta a moral difícil, de normas sacrificais. As ideologias pesadas, na política, também o estão; as oposições direita e esquerda tornaram-se menos radicais. Com a globalização, marcada pelo triunfo do mercado e a derrocada do Muro de Berlim, caem afinal, até mesmo, as normas imperativas nos costumes, nas roupas, no uso do luxo. Uma nova ordem se estabelece, na quebra dos imperativos, na diversificação das normas.

As possibilidades virtuais da realidade

No sábado pela manhã, a conversa é provocada por Tercio Sampaio Ferraz Jr. Ele encontra como protagonista da hipermodernidade, pensada por Lipovetsky – de efêmero, moda, vazio –, o homem que Hannah Arendt, em uma antropologia filosófica, nomeou homo laborans, em oposição aos homens antigo e moderno que, reconhecia ela e Tercio Ferraz expôs, organizavam sua atividade com prioridades distintas (em A Condição Humana).

Homo laborans é o homem envolvido no labor, no próprio sustento, que vive para trabalhar, produz para consumir. Está todo o tempo, portanto, diante do efêmero. Sua atividade não tem fim, não pode cessar.

É esse homem, consumista, que vive as transformações do século XX, em três fases, de conformações simbólicas distintas.

O século nasce sob o signo do “declínio” da civilização (Spengler), da décadence, nas tensões políticas e sociais que fazem sonhar com um novo ciclo para o Estado para o homem: esperança que nutriu as soluções totalitárias emergentes nas primeiras décadas.

A décadence teve os indivíduos divididos simbolicamente de maneira constante e clara: padrões para os sexos, a divisão de classes. A sociedade foi relativamente estática, havia incluídos e excluídos, e acreditou-se que apenas uma grande revolução poderia trazer mudanças.

Às Grandes Guerras desencadeadas nesse período, sucede um tempo de reconstrução, expansão econômica, marcado pela proposta de “desenvolvimento”, em que o simbólico adquire outra conformação, diz Tercio Ferraz. Reerguiam-se a Alemanha, o Japão e, enfim, a Europa como um todo.

O homem passa a ser visto como um ser que funciona, que exerce funções abertas a qualquer um. O tempo pode conduzir alguém à função almejada.

A situação social do homem torna-se, assim, mais flexível. O que antes parecia impossível parece, agora, possível em uma questão de tempo. A inclusão virá. A realidade e a ordem simbólica estão mais próximas.

Finalmente, nos anos 80 ou 90, teve início o terceiro período do século XX, a globalização. Nela, a mobilidade social muda de maneira mais radical: desaparece a marca das diferenças no tempo, suportamos imagens distintas, simultaneamente. Não há o que esperar: a tecnologia faz com que “quase tudo seja quase possível”. A igualdade ou a desigualdade entre os homens torna-se virtual. Um é homossexual, outro heterossexual, e daí? Um contra, outro a favor; alguns são iguais, outros desiguais – não se sente mais isso como um problema. Paradoxos se sustentam. As distinções tradicionais se turvam. Misturam-se, especialmente, a praça e a casa, o público e o privado. A defasagem entre o simbólico e a vida material se esfumaça de vez.

Essa mudança simbólica tem conseqüências diversas. No direito, os três tempos se delineiam com clareza: primeiro, ele fora visto como proibição, vedava alguns comportamentos, deixando o resto a cada um. Já no período do “desenvolvimento”, torna-se instrumento de transformação, que opera especialmente por permissão, autorização. Agora, o direito tornou-se instrumento de integração.

Um contrato, por exemplo, antes pensado como uma relação intersubjetiva, integra hoje não apenas direitos individuais, mas também coletivos ou difusos. Um pequeno contrato, a construção de um muro por vizinhos, hoje está envolvido pelo interesse do mundo inteiro.

O simbólico da globalização é, por isso, difícil. Pede a integração de todas as diferenças. Requer um reexame de fenômenos como a liberdade, a sociedade, a responsabilidade.

De qualquer modo, isso não acaba com a individualidade, diz Tercio Ferraz: entregas e resistências são possíveis; não precisamos aceitar tudo o que se apresenta. Também não desaparece, na realidade, a impossibilidade. Porém, se um homem não pode mais caminhar 10 quilômetros, como fazia há cinco anos, ele já não vive esse fato de maneira crua: pela participação, ele pode virtualmente andar como os outros, ou como qualquer um.

Nesse ponto aparece uma certa angústia do nosso tempo, diz, se questionamos o que é verdade ou falsidade. Qual o certo e o errado? Quem o determina? No terceiro simbólico, da globalização, ninguém determina e todos determinam. Nossa sensação é a de que vale tudo.

O mal-entendido

Jorge Forbes concorda com Tercio Ferraz, ao perceber um novo laço social do tempo recente, no qual a realidade não faz mais barreira à imaginação: a realidade, simbólica, dissolve-se no imaginário humano, no que Tercio Ferraz chamou de virtual.

Essa barreira, a realidade simbolizada, era nosso parâmetro para reconhecer a loucura. Agora, diante das possibilidades do virtual, “todos deliramos”. É preciso re-situar a liberdade e o limite, como Tercio Ferraz notou. Trata-se de encontrá-los no próprio laço social, independentemente de uma ordem prescritiva comum. Encontrá-los, portanto, em suas manifestações espontâneas, contando com o que Gilles Lipovetsky apontou em Metamorfoses da Cultura Liberal: a quebra dos modelos de comportamento e ordem social não trouxe o caos, a promiscuidade ou toda a violência que se temia.

A esse outro limite, a esse outro organizador que não somos capazes de captar em símbolos, Lacan chamou de Real.

As apresentações de Tercio Ferraz e Gilles Lipovetsky percorreram a história dos símbolos mostrando como eles mudam nossas formas de vida. Agora, porém, a globalização já não nos permite pensarmos o laço social em um Simbólico que ordena, por si só, o Imaginário. O Imaginário, hoje virtual, expõe constantemente o Simbólico a um excesso, que lhe escapa. Assim Jorge Forbes traduz em categorias lacanianas o problema que Tercio Ferraz anunciara.

Mas é possível levarmos nosso exame além dos símbolos, ao Real lacaniano, e assim encontrarmos a âncora ao excesso de imagens, virtual. Para isto, a proposta de Forbes é pensarmos o laço social a partir dos discursos, situando o Real como o mal-entendido.

Lacan reconheceu quatro estruturas discursivas, diz ele. No discurso do mestre, o mal-entendido é suprimido por um Simbólico que ordena todo o Imaginário: trata-se, na política, do discurso totalitário.

No discurso universitário a tentativa é de sustentar um saber, defendendo a possibilidade da “verdade” no encontro do Simbólico com o Imaginário, da realidade com nossa representação dela, contra o mal-entendido. Então, o universitário não suprime o mal-entendido, mas esforça-se para dar as costas a ele. A estrutura desse discurso é obsessiva, hierárquica, e reproduz-se nas instituições sociais, conforme a tradição: a família, o Estado, a empresa.

Outra relação possível com o Real, mal-entendido, é a do discurso histérico, que é discurso da ciência: ele reconhece algo do mal-entendido e busca resolvê-lo, simbolizá-lo, apostando que amanhã o todo será estabelecido (ou re-estabelecido) e não faltarão mais respostas. O discurso histérico é o da eterna insatisfação, da eterna tentativa de inclusão, no que se distingue do universitário, obsessivo, que guarda fronteiras.
Nenhum desses discursos abraça efetivamente o mal-entendido, como a globalização requer: sem contar mais com a possibilidade de o Simbólico, como realidade, cognoscível, deter o fluxo do nosso Imaginário, como virtus.

Há, no entanto, um quarto discurso de que falou Lacan, que compõe Simbólico e Imaginário com a virtualidade indicada por Tercio Ferraz, mas que se vale do mal-entendido como limite à desorientação, ao “desbussolamento” atual – como tem dito Forbes e foi título de conferência de Lipovetsky estas semanas. Trata-se do discurso do analista, que comporta o silêncio, suporta a ausência de respostas: esse discurso tem ocorrências espontâneas nos trabalhos criativos, no novo luxo, nas soluções que o homem e, especialmente, os jovens, com sua música eletrônica, com os esportes radicais, têm encontrado na globalização.

No universo do virtual, o amor do sensível dura.

Gilles Lipovetsky destaca uma vertente do que disse Tercio Ferraz e defende que a relação homem atual com a virtualidade, no sentido estrito de um mergulho nas possibilidades da imaginação através da mídia – como fazem, diz, patologicamente, alguns jovens – não é um fenômeno de completo alcance sociológico. Há sim, ele segue, uma imersão no consumo, uma lógica temporal do estrito presente, a dificuldade com a espera, a imediatidão. Mas há também uma reabilitação do que a humanidade possui de mais antigo: a internet, o hiper-real, coabita com o retorno do esoterismo, com a religião e, aliás, uma magia da relação com os objetos, o amor do sensível. A possibilidade do ciber-sexo não abole o desejo de encontro táctil com o outro. Sociologicamente, conclui, os maiores consumidores do virtual são as pessoas de vida social mais intensa.

O i-mundo

Luiz Eduardo Borgerth convida Gilles Lipovetsky a debater o papel da televisão. Para Borgerth, “a TV é importante porque não tem importância”, ela oferece uma via às pessoas para escaparem de um cotidiano duro, em algo além. Ela tem a função da literatura de outros tempos – Balzac, por exemplo – mas não é letrada, sofisticada, porque feita para o povo. Hoje, diz ele, quem sabe escrever não pode estar na televisão. A televisão feita com profundidade não consegue audiência.

De qualquer modo, pede que se considere a televisão simplesmente como um aparelho, através do qual pessoas falam às pessoas. A crítica cabe ao que se fala ou faz através dela. Em grande medida, faz-se nada, e isso é um valor. Exportamos novelas que em boa parte do tempo não dizem nada, e as exportamos para a França, por exemplo. A televisão, diz Borgerth, “é um lixo”, e “nós sabemos fazê-lo” melhor que outros países. Vendemos, por ela, um nada importante.

Gilles Lipovetsky responde-lhe que a televisão não é nada, é muito: por um lado, consome quase a totalidade do tempo livre das pessoas, e as crianças obesas – um fenômeno “hiper” deste tempo – vêem televisão como nunca. Por outro lado, a televisão e a publicidade proporcionam um mundo de imagens que reveste o essencial, e têm um papel sobre o universo da aparência: as pessoas conhecem e compartem os referenciais oferecidos pela televisão. A mídia opera, de fato, colocando as pessoas em relação umas com as outras em larga escala. É por essa hiper-relação que o mal estar na civilização de hoje não é mais o mesmo de que falou Freud, fruto da repressão.

Jorge Forbes fecha esse debate num ponto em que concorda com Borgerth: há sim algo de “fora do mundo” que nos importa capturar, tomar em conta. É o “i-mundo”, no “lixo da TV”, de que falou Borgerth.

O limite do corpo: a biologia.

O debate da noite de sábado é provocado por Chaim Katz, que recorda o livro de ficção de Thomas de Quincey, Os últimos dias de Kant: a história da morte do filósofo com Alzheimer, como se imagina que tenha ocorrido. Um gênio intelectual, diz Katz, entregue àquilo que seu próprio corpo lhe oferecia, sem fala, sem poder conduzir seu pensamento, impossibilitado do que ele mesmo pregara: seguir as ordens da razão e assim constituir-se como sujeito.

Mas, o que é desumano quando um sujeito é atingido por Alzheimer? Quando um indivíduo – aquele que não pode ser dividido – adoece ou, simplesmente, envelhece? Para Freud, à diferença de Kant, a divisão do homem é o que o constitui. Então, propõe Katz, vale pensar também em uma divisão daquilo que nós entendemos como humano.

O idoso enfrenta especialmente essa divisão, vivendo a possibilidade de uma vida longa, que lhe é oferecida na ordem da animalidade, simplesmente porque há recursos para seu corpo durar, com a perspectiva virtual de conservar as alegrias, o gozo, os prazeres da potência, mas com o obstáculo do corpo fisiológico, que declina. Katz coloca o envelhecimento como questão sobre o pensamento de Lipovetsky: que pode esperar, ou pode esperar produzir, para a velhice, um homem que tem a perspectiva de viver 100, 120 anos?

A naturalidade enfrentada pelo sujeito aparece ainda em duas questões clínicas que Katz propõe: a primeira diz respeito a uma moça, codinome Marselha, de 19 anos, em tempo de “ficação”: ela beija 23 rapazes em uma noite – uma forma nômade de se relacionar, que recusa a ordem familiar, e é socialmente atual – e sente-se infeliz.

Ao contrário de Kant em seus “últimos dias”, essa paciente atende às normas que lhe cabem, faz-se um indivíduo, tem plenas condições em seu corpo, mas é um sujeito infeliz. Ela encontra o que lhe é diferenciado, proposto para a sua idade pela vida social, mas não fica bem. Procura análise. Então, por que a procuraria, se a resposta para a sua felicidade estivesse na individualidade dela, como teria pretendido Kant, ou no que ela pode produzir?

Na mesma linha, uma segunda questão: será que a depressão, hoje, não pode ser pensada como uma quebra na vida social normativa, da produção, em busca de um afastamento diferencial maior em relação aos outros? Não será uma resposta social positiva, de uma subjetividade que não é só produção, e que justamente na preguiça, na insistência do não-fazer, pode distinguir-se da animalidade?

Escolher a norma

Lipovetsky entende que as questões postas por Katz tratam o paradoxo atual do indivíduo poder seguir modelos sociais ou escapar deles. A hipermodernidade acolhe essa dupla possibilidade e sustenta, sim, o paradoxo. Lipovetsky percorre exemplos: no campo da sedução, muitos dizem que vivemos o tempo de uma tirania do prazer. Não existe tal tirania: os jovens não assumiram uma vida sexual promíscua, nem mesmo quando se imaginou que tinham todas as condições, com a difusão dos anticoncepcionais. Há outros modelos sociais que fazem o contrapeso e exigem do indivíduo a decisão: as normas de saúde, por exemplo, também exercem influência. Ainda assim, hoje é difícil alguém não ter vida sexual, porque os modelos são muito presentes.

A menina que beija 23 rapazes é pequena expressão da escala hiper que a mídia realiza com atrizes, por exemplo, que seduzem milhares de homens. O excesso aí presente, a lógica quantitativa, é moderna, mas a hipermodernidade acolhe também seu contraponto, a lógica qualitativa. O indivíduo escolhe a que atender. Uma ordem espontânea se constitui a partir da sua escolha. Vê-se: três quartos dos europeus adultos declaram-se satisfeitos com sua vida sexual.

Quanto à preguiça, há quem defenda que estamos submetidos ao imperativo de estar sempre em ação, um “neoprodutivismo”. Ela seria uma reação. Porém, a hipermodernidade sustenta também as normas do corpo, do sensual, da sexualidade, que não se cumprem às pressas.

Nos dois exemplos, da sedução e da preguiça, uma profusão de normas, modelos sociais, desobrigam a ação individual de assumir um sentido único.

A velhice também é vivida sob a multiplicidade de modelos. O que o idoso fará ganha alternativas. Hoje, ele é convidado a seguir a moda, que é prioritariamente jovem. Na moda atual, pela primeira vez, importa mais parecer jovem que rico. Porém, ao mesmo tempo, o jovem começa a captar referências de outros tempos. O jovem, aliás, olha cada vez mais para o futuro, para a velhice.

Gloria Kalil colabora com a leitura de Gilles Lipovetsky, e retoma as propostas de Tercio Ferraz, constatando que a moda expressa o paradoxo de que eles falam: diante dela, todos nos sentimos ao mesmo tempo incluídos e excluídos.

Historicamente, a moda confirmou ou até antecipou inquietações sociais: nos anos 50, a vida clássica no American way of life; nos 60, revolução e juventude; nos 70, liberdades; nos 80, com a AIDS, um refreamento, que fez a década do poder, com ombreiras e ternos; nos 90, individualidade e tribalização.

Hoje, como a sociedade, a moda é muito mais difícil de ser entendida, porém inclui muito mais que exclui. Representa cada pessoa de forma muito, muito possível, pela escolha. Mesmo em termos de idade, houve uma abertura, paradoxal: embora as modelos sejam muito novinhas, surgiu uma janela para o brechó, as referências se mesclam nas roupas, têm-se recuperado as camadas da vida, os outros tempos.

O limite no corpo: a biologia lacaniana.

Luiz Eduardo Borgerth interveio na apresentação de Chaim Katz para dizer que a velhice situa o homem no tempo, o que, para ele, tem sido uma delícia: “eu sou velho e é ótimo”.

Na noite do sábado, a terceira reunião é concluída por Jorge Forbes nesse ponto: o Real lacaniano é o corpo, que Borgerth mostra sermos capazes de descobrir na velhice. Descobrir o corpo é situar-se no tempo, ser capaz de nomear, ancorar algo que passamos a vida procurando. É o que também uma análise pode proporcionar.

Não se trata de antecipar a velhice, responde Forbes, mas de precipitar essa certeza do corpo no tempo, que situa uma pessoa, a desalienando. Justamente o que a paciente do Chaim Katz, Marselha, não consegue: ela transita entre imagens, entre rapazes, sem ancoragem. Marselha não é um porto – assim interpreta Forbes a escolha desse codinome por Katz.

Também o deprimido não consegue sê-lo: ele se vê em descompasso com os papéis socialmente ofertados, vive uma desregulação da identidade.

Isso não acontece com quem é capaz de ancorar-se no corpo – condição para que haja escolha – localizar-se entre as normas e as modas, encontrar seu limite em meio a um imaginário ilimitado, às possibilidades ilimitadas.

A questão psicanalítica posta por Chaim Katz, no olhar de Jorge Forbes, é importante bem além dos velhos: não só a velhice proporciona uma maneira de situar o corpo. Os jovens, hoje – o que é precioso ao olhar do analista – têm encontrado suas vias muito além das respostas iluministas que a geração anterior lhes oferece, nos exemplos, vale repetir, da música eletrônica, dos esportes radicais. É o que uma análise deve captar e proporcionar ao paciente: a experiência, exposta por Borgerth, do corpo além do entendimento. A experiência do limite, que fixa o gozo desbussolado.

(A Editora Manole lançará, ainda este ano, um livro reunindo os dois primeiros Seminários da Feiticeira.)