Recado de Laurent Alexandre aos políticos do futuro

04/03/2016 05h00

NOTA PRÉVIA

O IPLA-Instituto da Psicanálise Lacaniana tem se dedicado a pesquisar as modificações subjetivas e do laço social, na pós-modernidade. Essas pesquisas se baseiam na Clínica do Real, de Jacques Lacan, para uma psicanálise do Século XXI, uma psicanálise do “Homem Desbussolado”.

Nesse caminho, temos desenvolvido estudos e pesquisas teórico-clínicas dos efeitos do confronto da psicanálise com a revolução NBIC. Essa sigla, ainda pouco conhecida, em breve será muito debatida. Ela se refere a quatro revoluções tecnológicas que se alimentam sinergicamente: Nanotecnologia,Biotecnologia, Informática, Cognitividade, criando um futuro impactante, chamado por alguns de transumanismo (outra das novas palavras).

Publicaremos, a partir de hoje, nesta Newsletter, algumas notas desse estudo em andamento no IPLA e no Projeto Análise.

São Paulo, 3/12/ 2015

Jorge Forbes

 

PS: Já foi publicado, na edição 144, de O Mundo visto pela Psicanálise,  o texto de de Dorothee Rüdiger Parece ficção científica, na edição 143, o texto de Claudia Riolfi, Da “Medicina 4P” para a “Psicanálise 4S e na edição 142, o texto de Alain Mouzat,Transumanismo, transgressão em grande velocidade ...

 

 Recado de Laurent Alexandre aos políticos do futuro

 

Dorothee Rüdiger

Os políticos do futuro, ao que tudo indica, terão que se ocupar com questões de foro íntimo. Ao menos é essa a impressão que dá a leitura do último capítulo do livro La mort de la mort do médico francês Laurent Alexandre, no qual tece considerações sobre um futuro “Governo 2.0 para pilotar a biopolítica”.  Essa biopolítica exige visão e capacidade de governo. Pois o cenário por vir pode ser bem aquele como apresentado no seriado de TV inglês  Black Mirror . Se hoje já é temerário largar o smartfone cheio de gravações de conversas, fotos e itinerários traçados sobre a mesa,   no futuro próximo, um chip será capaz de registrar tudo que se vê e se ouve. E se essas memórias no chip caírem na mão do namorado? Já pensou?  E como conviver com seres humanos cada vez mais aperfeiçoados, com a perspectiva do prolongamento da vida humana para muito além dos 100 anos de idade?

A questão é como administrar uma revolução em curso que as possibilidades da nanotecnologia, da biotecnologia, da informática e das ciências cognitivas estão silenciosamente realizando nesse exato momento.  Trata-se de saber, como criar regras morais e jurídicas para uma sociedade marcada pelos efeitos dos NBIC  para  que possamos desfrutar  suas benesses e evitar seu “lado B”.  Enfim, a questão é,  quais atitudes  tomar diante das mudanças paradigmáticas que nós, nossos filhos e netos vamos enfrentar. 

Aos políticos de um futuro bem próximo convém agir com uma ética diferente dessa dos políticos contemporâneos.  Esses políticos, assim sugere Laurent Alexandre, devem amar o futuro. Para início de conversa, tanto os políticos, quanto os cidadãos estão, hoje,  despreparados para a tarefa que os espera. Afora os aficionados por tecnologia, os geeks, as pessoas não têm noção daquilo que acontece no campo da ciência e tecnologia. Pois deveriam ter. A ingenuidade dos agentes políticos, que vão criar e fazer valer as regras sobre  a aplicação das NBIC, pode levar aos abusos públicos e privados tematizados pela série Black Mirror.

No entanto,  reflete o autor, o atual sistema político em vigor no Ocidente dificulta políticas públicas a longo termo.    Há um período legislativo e de governo muito curto. Assim, os políticos se deixam levar em suas decisões ao sabor das comoções populares do momento.  O imediatismo geralmente leva a uma política conservadora. As novas questões são ligadas a interesses difusos na gestão do futuro e exigem a capacidade de projeção independente do credo religioso ou ideológico político. Será necessário promover  recursos tecnológicos para, por exemplo, favorecer pessoas com deficiências mentais  e financiar pesquisas que possibilitarão terapias genéticas para salvar vidas.  A tomada de decisões dos políticos do futuro será realizada sob as pressões nas redes sociais, de um lado, e sob a influência do fato de que, na sociedade global, há outros países que já permitem em seus centros de pesquisa o desenvolvimento das NBIC.  

A polarização política entre conservadores e abertos para a tecnologia só pode ser superada com novos programas políticos.  Bem informados e formados, cidadãos e políticos podem tomar decisões que incluem uma visão sobre como gerenciar as mudanças tecnológicas e , ao mesmo tempo, manter as possibilidades de escolhas sobre quais tecnologias devem ser desenvolvidas,  quem as financia e como se mantêm, principalmente, a neurossegurança.  Laurent Alexandre propõe que os Estados, as Organizações Internacionais e a sociedade civil mundial, ao invés de recusarem o debate,  realizem a governança  global dessas questões, uma vez que  atingem toda a humanidade. O desafio para essa governança mundial será de garantir que o ser humano continue a ser o “maestro” a dirigir o processo de inovação científica e tecnológica.

No contexto dessa governança, questões éticas, religiosas, psiquiátricas, filosóficas e geopolíticas entrarão em pauta. Com as possibilidades de prolongamento da vida nascerão novas demandas de sentido. Como ganhar mais vida, saúde, inteligência e beleza e evitar as formas “orwellianas” de poder autoritário que o uso das tecnologias NBIC pode suscitar? Como administrar a angústia que a vida prolongada dos belos e inteligentes,  paradoxalmente,  possa causar?

Porque, sim, a perfeição incomoda.  Jorge Forbes dá um bom exemplo disso  em seu artigo Fogueira de felicidades: Quem aluga um chalé do Lago Como,  na Itália,  paga aluguel adiantado. Não suportando tanta beleza do cenário, pode fazer as malas mais cedo.

A ética da psicanálise será necessária para tratar os pacientes do futuro. Diante da nova angústia causada pela vida aperfeiçoada e, quem sabe,  ilimitada, de acordo com Laurent Alexandre, os psiquiatras e  psicanalistas serão solicitados.  A vida eterna é traumatizante. “A morte sustenta a vida,” diz Jacques Lacan, em 1972,  em sua Conferência na Universidade Católica de Louvain. O aumento da capacidade cerebral de armazenar memórias será uma tormenta.  A possibilidade de apagar ou preservar memórias possibilitará mudanças graves de identidade ao longo da vida . Novas drogas irão dar novos “baratos” e modificar a capacidade intelectual. Quem vai prescrever essas drogas?  Quem decide sobre as memórias que devem ser preservadas ou  deletadas? Como se garante a liberdade de escolha sobre memórias as guardadas num chip? Vai haver a necessidade de uma regulamentação de drogas e de implantes que podem fornecer informações corretas ou manipuladoras. 

Bebês com a genética perfeita podem, quando crianças, adolescentes e adultos, sofrer por causa da sua perfeição. Já que foram feitos com tanto cuidado,  a cobrança dos pais tende a aumentar. Podem ouvir frases do tipo: ” Gastei a maior grana para você ser superinteligente e olha só a nota que você  me traz no boletim!” Quando as expectativas são de perfeição, é fácil não atender a elas.  Por outro lado, sem a morte, a maioria das pessoas não terá mais nem vontade de ter um bebê, por mais perfeito que seja.  Para quê um imortal vai querer procriar para se perpetuar no mundo?  Com o prolongamento da expectativa de vida a angústia diante da possibilidade de uma  morte precoce aumentará em pessoas mais frágeis,  em soldados e policiais, em caminhoneiros e bombeiros, enfim em todos que correm  riscos.  E os pais terão uma dose extra de pavor diante das estripulias dos filhos.

Os psicanalistas poderão, junto com os filósofos, ser chamados  para os debates sobre o homem, sua dependência e inadequação à civilização.   Quais são as capacidades genéticas inatas do ser humano, quais as adquiridas pelo processo civilizatório? Qual é o papel do  livre arbítrio?  Como  sair do falso dilema entre determinismo genético e social?  São as determinações sociais ou é nosso mapa genético, feito mapa astral, o que  determina nosso destino?  O psicanalista Jorge Forbes e a geneticista Mayana Zatz que, há quase dez anos, mantêm uma clínica psicanalítica no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, sabem que “a genética não é o destino”. Preparemo-nos para as inúmeras questões que virão dos políticos do futuro. 

 

Dorothee Rüdiger é psicanalista e doutora em Direito pela Universidade de São Paulo