/Cinquenta tons de molho inglês

Jorge Forbes

 

“É o tema da vez: o livro Cinquenta tons de cinza
glamourizou o sadomasoquismo. E a graça dos realities shows de gastronomia
atuais está no sadismo. Não são programas de culinária, para ensinar receitas,
como havia antigamente.

São formatos que exploram a relação entre o chef e o
participante, suposto escravo. Assim, a culinária fica em segundo plano, pois
toda a sedução do programa está nessa relação sadomasoquista. 

É muito engraçado porque, num momento em que há um debate do
politicamente correto, programas sadomasoquistas como esses fazem sucesso no
mundo. Isso porque eles respondem a uma inquietação da época. Vivemos um
período em que as pessoas se sentem muito perdidas, a sociedade está
‘desbussolada’. Frente à angústia atual, todo mundo quer ter um chef na vida
que dite o padrão do gosto. 

As pessoas perderam seus parâmetros porque o laço social não
é mais vertical como antigamente, quando havia comportamentos fixos e padronizados.
Quando você sabia, por exemplo, que nunca poderia colocar na mesa feijão com
filé de peixe. Nessa época em que se perdeu o how to do, o que é
certo e o que é errado, as pessoas têm angústia de exercer essa liberdade. Como
tudo pode, é possível errar mais. E isso as aflige. Ao expressar o desejo mais
livremente, elas se angustiam, porque têm o poder da escolha. 

Nesse momento de desbussolamento, ter um chef que me diga
qual é o certo e qual é o errado me acalma frente às minhas escolhas e aos meus
desejos, em relação à comida, em relação a tudo na vida. 

O telespectador se identifica com os apresentadores, que
passam a ser charmosos pelo seu autoritarismo – eles normalmente recebem os
convidados com os braços cruzados, atitude de desconfiança em relação ao
interlocutor -, ou com os participantes, torcendo por eles. As pessoas vibram,
e os concorrentes consolam os que foram expulsos, mas no fundo aqueles estão
felicíssimos porque é um competidor a menos. O público sabe que aquilo tudo é
falso. É um show de reações humanas em que o espectador tem uma palheta de
cores bastante rica e variada, e pode se identificar com diversas pessoas do
programa. 

O interessante desse formato é que os chefs se transformaram
nos juízes do gosto, sugerindo à população que existe um gabarito do gosto. E
gosto é algo profundamente pessoal, onde não existe norma, regra. É como
política e religião: não se discute. 

Todo esse fenômeno, que a gente assiste em nossos sofás, tem
a ver com um endeusamento dos chefs no Brasil. O francês, por exemplo, tem uma
relação mais responsável com a comida e com o gosto. Desde criança, ele aprende
a prestar atenção ao que está comendo, ao que combina e ao que não combina. No
restaurante francês é normal a pessoa discutir com o chef por causa de um
prato. No Brasil, o que mais acontece é o agradecimento ao chef, quando não um
pedido de autógrafo. Aqui, o poder do nome é maior do que o poder do
gosto.” 

Entrevista para a Revista 29 Horas, maio 2015

Link para a entrevista no site da Revista 29 HorasClique aqui