Pax Lacaniana – pra não dizer que não falei das flores

17/07/2009 13h19

História do Campo Freudiano no Brasil, por Jorge Forbes

Quando os antigos romanos se impunham pelas armas aos povos vencidos, davam o nome à conseqüente tranqüilidade, imposta pelo Mestre, de Pax Romana.

Lacan, no avesso da ordem da civilização, propõe a Escola como refúgio ao mal estar. Seria, pensei, a Pax Lacaniana.

I O Fato

O Setor Paulista do Campo Freudiano - Iniciativa Escola foi promulgado no dia 29 de março de 1993. Um setor é uma organização para a psicanálise, com todas as características de funcionamento de uma Escola. Espera que a Escola exista para se tornar uma seção.

Simultânea à criação do Setor, quatro de seus membros, Jorge Forbes, Luiz Carlos Nogueira, Márcio Peter de Souza Leite e Oscar Cesarotto propuseram, na dialética da Escola, da suposição do saber, o Instituto de Pesquisa em Psicanálise de São Paulo, para se ocupar da exposição do saber.

O que aqui vou relatar são: os antecedentes do Setor, as especificidades de seu regulamento, soluções e problemas e uma parcial perspectiva de uma Escola Brasileira de Psicanálise, vista em abril de 93.

Relevo ainda que essa história foi realizada por muitos, a quem agradeço, e peço licença para contar.

II Antecedentes

1. O começo

Era uma noite de janeiro de 1981. Estávamos reunidos na casa de Jacques-Alain Miller em Paris, além de nós dois, Alain Grosrichard, Colette Soler e Éric Laurent. Discutíamos sobre a forma de aceitação do convite que sete meses antes eu tinha feito a Miller, em Caracas, por ocasião do 1º Encontro Internacional do Campo Freudiano, para vir ao Brasil ministrar uma série de conferências.

Naquela época, o Seminário “Encore” apareceu traduzido em português e um famoso artigo crítico, na revista Veja, criou e popularizou o termo “lacanagem”. Parecia-me conveniente responder à uma transmissão de Lacan baseada em um atraente jogo de palavras ou frases de impacto, com um discurso racional, matêmico e demonstrado numa lógica clínica. Jacques-Alain Miller me parecia, e se confirmou, quem melhor poderia fazê-lo.

Nessa reunião estava na pauta em nome de qual instituição seria o convite apresentado. Propus todas as que conhecia no eixo Rio/São Paulo, aquela a que eu pertencia e outras. Após longas discussões concluiu-se que um novo tempo se iniciava, pós-Escola Freudiana de Paris, e que o convite só seria possível se eu o assumisse só e pessoalmente. Aceitei. Essas conferências, realizadas em São Paulo, em outubro de 1981, um mês após a morte de Lacan, marcaram, poderíamos dizer, o início do Campo Freudiano no Brasil.

2. A Biblioteca Freudiana Brasileira

Foi nessa ocasião, e em conseqüência do trabalho que se iniciava, que foi criada a Biblioteca Freudiana Brasileira.

O “brasileira” do nome para mim representava a maneira pela qual com nossa língua nós percorríamos, atravessávamos, a letra de Freud.. Para Miller, além disso, havia uma idéia que, sob o mesmo significante, poderíamos organizar uma rede de trabalho no Brasil.

Já no ano seguinte, 82, eu defendia a idéia que o Brasil, diferentemente da França, é um país federativo e que se impunha até por motivos práticos, frente à necessidade, por exemplo, de divulgar o 3º Encontro Internacional na Argentina, que indicássemos colegas em outros centros que, por sua vez, deveriam se organizar. Já contávamos com a companhia de Eduardo Vidal e da Letra Freudiana no Rio de Janeiro e solicitamos a colaboração de Antonio Godino em Curitiba e de Nora Gonçalves em Salvador, mais tarde substituída por Jairo Gerbase. Esta história, sabemos, foi se complexizando, novos colegas, novas instituições, aproximações, afastamentos, e ultrapassa em muito a competência deste artigo, que não se pretende a tanto.

A Biblioteca, retorno, como ficou conhecida, era uma instituição de pesquisa. Sua principal forma de atividade foram os Módulos: um grupo de trabalho onde cada participante se comprometia a cada seis meses apresentar um trabalho escrito nas Jornadas e publicá-lo no livro correspondente.

Funcionou muito bem a Biblioteca, fez 20 jornadas, trouxe mais de 30 colegas estrangeiros, foram inúmeros os brasileiros que lá se apresentaram, criou a primeira apresentação de pacientes, lançou uma coleção de livros das Jornadas e no livro do Encontro Brasileiro, gerou a Sociedade Psicanalítica de São Paulo, impulsionou o Colóquio sobre a Escola, se dissolveu.

3. A Sociedade Psicanalítica de São Paulo


Em 1988 estávamos prontos para mais um passo: uma associação. Foi criada a Sociedade Psicanalítica de São Paulo, em clara provocação ao mesmo tempo que também se constituía a SABA - Sociedade Analítica de Buenos Aires.

A SPSP foi o nosso instrumento principal para o debate da Escola.

Em julho de 1991 ela assumiu a assembléia permanente, desencadeada na BFB, que perguntava “o quê” e “com quem” queremos trabalhar e em “qual direção”.

O 3º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano em Salvador foi determinante para os rumos decisórios desta assembléia. As posições tomadas por Jacques-Alain Miller em favor de uma discussão sobre a garantia do psicanalista e uma diminuição do interesse extensivo do Campo Freudiano, colaboraram na tomada de posição desta assembléia sobre suas três questões. Os vínculos com o Campo Freudiano foram reforçados.

Entre agosto e dezembro de 91, tempo que durou a assembléia, tomamos como nossa responsabilidade um amplo convite a muitos que trabalhavam em torno ao ensino de Lacan em São Paulo para que se unissem, apesar, é claro, das diferenças.

Realizamos a “clínica do convite”. Duas pessoas indicadas pela assembléia iam visitar um colega, convidando-o para entrar na Sociedade, em igualdade de condições com os demais. Ressalto que a Diretoria e o Conselho haviam se dissolvido, e que o convidado podia estender o seu convite, com as mesmas condições, a quem bem quisesse.

Os resultados foram bastante interessantes: uns aceitaram o convite, outros recusaram entrar como membros mas passaram a trabalhar juntos, e alguns chamados independentes, deram todos igual resposta que poderíamos sintetizar: “a instituição mata a psicanálise”. Isto se evidenciou quando as duplas que convidavam, relatavam à assembléia os resultados da entrevista que tinham realizado. Aprendemos muito nesses quatro meses.

Concluímos a assembléia permanente em dezembro com uma nova eleição de Diretoria e Conselho e uma agenda de trabalho para 92: uma série de seminários sobre a “Escola de Lacan”.

4. Os Seminários sobre a Escola

O Conselho do Campo Freudiano no Brasil se reuniu no dia 21 de dezembro de 1991 em Curitiba. Levamos nesse dia a proposta da Sociedade para iniciarmos no Campo Freudiano, em 92, atividades semelhantes aos “Colóquios-Seminários” sobre a Escola que aconteciam na Argentina. Fomos voto vencido. Essa proposta não se coadunava com a maioria das agendas já estabelecidas que pensavam primeiro solidificar os grupos para, em 93, iniciar o debate no Campo Freudiano no Brasil como um todo. O que fazer? A nossa solução, que pôde responder à necessidade de prosseguir o caminho e, ao mesmo tempo, estarmos juntos com os colegas, foi de convidá-los, numa série de seminários a cada três semanas, a vir a São Paulo, participar do nosso debate. Como alvo, um Colóquio sobre a Escola, marcado para outubro, realizado pela Sociedade, aberto, e com a presença de Jacques-Alain Miller que vinha na condição de membro do Conselho da SPSP. Foi o que fizemos.

III O Setor e o Instituto

1. O Setor

Uma semana antes do Colóquio, quatro pessoas, com responsabilidades institucionais, as mesmas que já citei na abertura, firmaram um compromisso que sintetizava, ao ver deles, o desejo da maioria: independente dos resultados do Colóquio, findo este deveríamos fazer uma reunião de proposta de dissolução de nossas instituições de origem: Associação Livre, Biblioteca Freudiana Brasileira, Escrita Freudiana, e também a Sociedade Psicanalítica de São Paulo, e pautarmos um trabalho comum.

Essa carta-compromisso foi entregue a Jacques-Alain Miller nas manhã da abertura do Colóquio, e por ele apresentada à assembléia deste.

A recepção por parte do público foi precavida: “será que os paulistas estão propondo uma separação?” Pouco a pouco foi-se esclarecendo a proposta, que veio a tomar corpo no dia seguinte, quando, em uma reunião geral dos interessados na I.E. em São Paulo, houve um “sim” decidido e assinado, pela constituição de um Setor Paulista do Campo Freudiano - Iniciativa Escola.

Uma comissão estatutária foi designada pelo Delegado Geral da AMP - Associação Mundial de Psicanálise -, com o acordo da assembléia, composta de oito pessoas: os quatro signatários da proposta mais quatro pessoas que se apresentaram para participar: Cleide Hirsch (que acabou não participando por impossibilidade pessoal), Domingos Paulo Infante, Dominique Fingermann e Marta Monteiro.

Esta comissão, orientada por Miller, fez um detalhado estudo dos estatutos das Escolas do Campo Freudiano, em especial do Setor da Catalunha da Escola Européia de Psicanálise e do Grupo de Estudos de Madri, da mesma Escola.

Foram quatro meses de trabalho que resultaram no regimento do Setor Paulista, promulgado em final de março de 93. Como anteriormente dito este regimento é “quase” o de uma seção, ele espera, aguarda a Escola para se ajustar em estatuto.

Dentre os pontos básicos a serem destacados há os cartéis, forma privilegiada de transmissão, e o “ensinar a seu próprio risco”. A biblioteca do Setor integrará a rede internacional de bibliotecas do Campo Freudiano.

Para entrar é necessário solicitar primeiro a Iniciativa Escola brasileira e, em seguida, ao Conselho do Setor. O âmbito de atuação deste é o Estado de São Paulo.

Ele é dirigido por um Conselho de oito membros e uma Diretoria de quatro titulares e quatro adjuntos, renováveis a cada dois anos.

2. O Instituto

Uma palavra sobre o Instituto de Pesquisa em Psicanálise de São Paulo. Ao criarmos o Setor nos deparamos com a necessidade de, ao mesmo tempo, constituir um espaço para dar seqüência e para receber trabalhos que ultrapassam o âmbito do Setor ou que não possam nele se desenvolver por não serem da ordem do “ensinar a seu próprio risco”, mas que respondem preferencialmente, ao Matema.

Preocupa-se o Instituto também com as relações hospitalares e universitárias, no modelo do Instituto do Campo Freudiano de Paris.

IV Problemas e Soluções

1. Problemas

É muito nova a constituição do Setor para possibilitar uma visão aprofundada de “problemas e soluções” por ele propiciados, mas mesmo assim contaria dois problemas:

a. os participantes da Iniciativa Escola não pagam cotização enquanto que os membros do Setor se responsabilizam por uma mensalidade. Temos tido resistências a esse pagamento por aqueles que não aceitam o princípio que o ensino no Setor seja gratuito. Perguntam-se pela vantagem de serem membros. Há também os que preferem ser somente participantes da I.E.

b. notamos quem ache que o setor não avançou sobre impasses anteriores, que seu regimento, por exemplo, não deveria ser homologado mas votado. Recebemos, ainda, proposta de iniciarmos uma discussão sobre a Escola que parecia desconhecer o que foi feito nos dois anos anteriores, em especial a série de seminários de 92. Parece-me que seria considerar uma vez feito o Setor cessa a discussão, o que é falso, pelo contrário, ele deve ser o melhor forum, o melhor instrumento à esta disposição.

2. Soluções

Pax Lacaniana foi o título que escolhi para essas considerações porque me ajuda a nomear o que penso estarmos vivendo. Seria uma paz da harmonia, do pleno entendimento, da concordância universal, da fratria amorosa? Seguramente que não. Nossa paz é aquela da conquista, do ultrapassar o narcisismo das pequenas diferenças, de fazer junto “apesar de” e não “por causa de”; é a paz que se busca na análise, no divã, um savoir-faire com o sintoma e o inconsciente. Os mal-estares passam a ser suportáveis quando o lugar do pai não está ocupado por um que é mais, porem quando aprendemos que há uma lógica necessária, que só podemos ir além do pai com a condição de sabermos nos servir dele (Lacan) e nisso o semblante é necessário. Estamos nessa aprendizagem, de vez em quando tropeçamos, mas não desistimos do caminho.

Agora trabalhamos juntos. Hoje, fazer Escola para nós, tem dois sentidos imediatos: saber o que pensamos e dizemos da psicanálise e o que realizamos em nossa clínica. Todos os esforços dos cartéis, seminários, apresentações de pacientes, etc. estão voltados para esses sentidos; acreditamos que conhecê-los é fundamental para fazermos Escola.

V Conclusão: e, amanhã, uma Escola brasileira do Campo Freudiano?

Já dizia Tom Jobim que nada mais universal que o quintal de nossa casa. Não me proponho a exercitar previsões, mapas astrais, mesmo porque o momento de concluir é sempre precipitado. Contei aqui uma visão parcial, há muitas outras variáveis nessa história, de um quintal que faz parte do terreno brasileiro. Se assim pude vê-lo é porque há Escola à vista.

Uma comunidade nacional de trabalho está se burilando e se constituindo em cada parte, apesar do paradoxo. Quando os resultados da união das diferenças dos “um a um”, for mais eficaz que a ordem unida, teremos a Escola, para começar.

E a Pax Lacaniana...