/O lugar da imprensa no caso Eloá

por Jorge Forbes – FOLHA DE S.PAULO São Paulo, quinta-feira, 23 de outubro de 2008 – Caderno Cotidano

LINDEMBERG JOGOU PARA A TORCIDA

NADA MAIS SEGURO que prever o passado, não há erro. O Brasil de tantos técnicos de futebol quantos torcedores, revelou-se esses dias com igual número de técnicos de segurança, de paixão e de loucura. O caso Eloá exige. Parece ser insuportável simplesmente não entender, enfrentar o impacto não só da violência mas também o da surpresa e da estranheza.
Podemos julgar uma ação por seus princípios, ou por suas conseqüências. No caso, frente à morte, o que importa é a conseqüência, mais que os princípios: Eloá morreu, logo, houve um erro. O fato de sabermos que houve um erro quer dizer que necessariamente ele poderia ter sido evitado? É o que gostaríamos que fosse, mas a resposta é não; há sempre um imponderável, podemos melhorar os acertos, mas não garanti-los. Isso posto, vamos lá.
A mídia indaga se a mídia errou. Boa pergunta. Dizia o filósofo Gaston Bachelard que aquele que pergunta sabe a resposta. Vamos refletir pelo mais óbvio: se você quiser mudar a atitude de alguém, convencê-lo do seu erro, possibilitar uma revisão de suas certezas, você vai marcar um encontro em um barzinho, em uma mesa de canto, ou no palco do Teatro Municipal, em dia de platéia lotada? Claro, no barzinho. Ali, você poderá ouvir à exaustão o seu interlocutor, deslocar seus pontos de apoio, possibilitar linhas de escape, sem ninguém ter que honrar a palavra dada, a sua opinião, o seu amor, o seu ódio etc. Na intimidade é mais fácil sermos incoerentes, duvidarmos, revermos. Agora, se você resolve convocar uma grande platéia, muito maior que a de um teatro, aí as proporções são outras, o jogo é outro: acabou a conversa, começou a legitimação, o popularmente dito: jogo para a torcida. A patologia do amor pode fazer que alguém, um jovem tendo perdido a sua coisa, o seu objeto, a sua mulher, e queira consagrar a presença perdida.

Ele entendeu mal a lição do Romeu e da Julieta, e para expressar o seu amor doente, se ele não pode casar, para inventar a vida, que seja a morte que lhe invente a eternidade; sim, ele pode assim querer. Ele pedia insistentemente algo como: “Invadam logo esse bagulho aqui, vamos acabar logo com isso, eu insisto, eu insisto…”.
E o palco foi feito com muito mais câmaras de fotografia e de televisão, que em qualquer casamento de filho de político com de banqueiro. O que poderíamos esperar do policial negociador que tentou parar esse casamento trágico? Muito pouco, nada, a conversa não era com ele, era com a tela, com o estar bonito na fotografia, com a consagração do crime. O tempora, o mores! [“Ó tempos, ó costumes”, em tradução livre].
E nessa dança macabra, o passo final, a imprescindível prisão do falso amante – pois entender não é desculpar – é dado pelos acordes da nossa música social. Caímos na armadilha: temos que prender quem quer ser preso.