/O Promotor e o Psicanalista, no IPLA, na noite de 21 de junho – Será que Freud explica?

Entrevistas com os participantes na noite do debate.

21/6/2006

Entrevista à Rádio Lacaniana

RL – Promotor Roberto Tardelli, você achou importante esse debate de hoje à noite? Porque?

RT – Achei muito importante. Primeiro, porque achei que tem gente mais louca do que eu. Alguém que me convida não pode ser tão normal assim. Sempre achei que eu fosse um “border-line” e vi que não estou sozinho. Achei também que foi a melhor oportunidade que tive nesses quatro anos em que estou acompanhando esse caso, de ter finalmente uma conversa de alto nível, sem sensacionalismo, sem passionalismo, com as pessoas se colocando cientificamente no assunto, dando substratos para quem vai trabalhar no processo. Até gostei de ver os advogados de defesa lá, porque eles vão ter o que fazer. Os advogados devem ter adorado o que o Prof. Tércio disse. O que ele coloca, da forma que coloca, mesmo que entendamos um terço do que ele fala, está bom demais. As colocações de Jorge Forbes e de todos que estavam lá, tiveram um sentido só: científico. Não houve nenhuma colocação dramática, foram todas de extrema civilidade. Há quatro anos eu esperava por um momento como este.

RL – O que você achou do debate de hoje à noite, Jorge Forbes?

JF – Eu acho que esse debate corresponde ao que eu penso que deva ser o Instituto da Psicanálise Lacaniana, um instituto que faça a psicanálise inquirir e ser inquirida por todos os discursos sociais. E os analistas não poderiam se ausentar na sua responsabilidade, frente a um caso como o de Suzane, que como eu tentei dizer nessa noite, é muito além do fato em si, porque nós temos o julgamento de uma pessoa, temos o julgamento de uma sociedade, e temos o julgamento do processo de defesa dessa sociedade, que é o estado de direito. Esses três aspectos: o crime em si; a sua repercussão social e o que ele interpreta a sociedade brasileira atual; e a crise da sociedade de direito, foram amplamente discutidos, como disse o promotor Tardelli, de uma forma científica, calma, sem passionalismo, numa noite em que não poderia esperar nada a mais. Para mim, ela é um paradigma das atividades que o Instituto da Psicanálise Lacaniana e o Projeto Análise devem continuar promovendo.

RL – Profª. Mayana Zatz, o que a senhora achou do debate?

MZ – Achei ótimo, mas puseram palavras em minha boca, que eu não disse. Por exemplo que eu disse que ela merece ser morta. Eu sou contra a pena de morte. Acho que ela (Suzane) deve ser afastada definitivamente da sociedade. Acho que ela deveria ir para uma cadeia pelo resto da vida. Acho que esse caso não tem solução. Sobre o debate, achei fantástica a idéia. Ouvir pessoas com diferentes visões, diferentes posições e diferentes profissões, é uma experiência que enriquece muito. Foi realmente um debate muito interessante, polêmico, e é isso que dá a graça.

RL – Dr. Ariel Bogochvol, diretor do Instituto da Psicanálise Lacaniana, o que achou do debate de hoje à noite?

AB – Acho que foi uma oportunidade única de juntarmos pessoas de várias procedências e várias disciplinas, em torno de uma questão que é, para todos nós, enigmática, e nos obrigou a fazer uma série de reflexões sobre o crime, a natureza do crime, a inserção do crime no meio social, a questão do crime e do castigo, da pena, e de como isso mobiliza toda a população em torno de um ato – que é considerado o ato mais abominável – o parricídio (e o matricídio). É um tema fundamental para a psicanálise e tivemos condição de trabalhar esse tema numa situação viva, num acontecimento da civilização nesse momento. Tivemos uma grande oportunidade de conjugar a teoria, as questões práticas do direito, a presença de pessoas fundamentais, enfim, para mim, foi uma grande realização.
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Entrevista de Jorge Forbes para Rede TV, na Noite do Debate com o Promotor roberto Tardelli

Repórter: – Freud explica o ato de Suzane Von Richthofen?

Jorge Forbes: – Freud escreveu vários livros a respeito do parricídio. O principal deles – “Totem e Tabu”- trata da tendência, na espécie humana, da morte de um pai primordial. E haveria essa morte para dar uma vinculação entre os seres humanos, que não repetiriam esse crime, por já ter ocorrido. A leitura que Freud fez no século passado deveria hoje ser um pouco modificada, porque a sociedade não é mais a mesma: passamos de uma sociedade pai-orientada para uma sociedade transversal. Hoje, Freud não explicaria dar uma razão ao acontecimento, como por exemplo: “Suzane fez isso porque tal coisa a levou a fazer”. A sociedade fica muito aflita quando não colocamos uma causa em relação ao ato. Porque quando não há uma causa, ficamos sem compreender, e se ficamos sem compreender, isso pode também acontecer conosco. E as pessoas estão aflitas, porque pensam: “Se a Suzane fez isso, eu também posso fazer. Então é preciso achar uma causa que a deixe bem diferente de mim”. Porém, eu diria que não podemos justificar o ato de Suzane em nenhuma compreensão freudiana. Não sou juiz, sou psicanalista. Não posso julgar Suzane pelo que vi sobre o caso, mas não vejo por que considerá-la irresponsável. Um analista não é competente para dizer quanto ao julgamento, quanto à pena, mas creio que Freud, antes de tudo, diria que somos responsáveis até pelo nosso inconsciente.

Repórter:- Então Suzane não teria um desvio ou um surto psicótico que a levou a matar o pai e a mãe?

Jorge Forbes: – Houve até uma revista semanal que, algumas semanas depois do fato, publicou na capa: “Entendemos o segredo do assassinato de Suzane: ela tinha uma mãe psiquiatra, que trabalhava fora de casa, e um pai alemão”. Quando apresentamos perguntas desse tipo, acabamos por achar Herodes natural, como diria Vinicius. Acho que justificar através de uma patologia poderia ser muito extensivo a toda população. Como diria Caetano: “De perto ninguém é normal”. Portanto, não vejo porque justificar isso por alguma patologia que faria com que ela não tivesse conhecimento da gravidade do que estava fazendo.

Repórter: – E essas atitudes de Suzane, depois do crime, inicialmente mais infantis, depois se despindo um pouco disso, criando sempre personagens e histórias?

Jorge Forbes:- Ontem um advogado me disse que, às vezes, o tribunal do júri julga mais pelo exibicionismo de certos cenários que montam do que do caso em si. Eu vejo que isso seria um jeito de dizer que ela foi levada a, é como dizer que ela não pode ser responsabilizada. Acho triste porque o que está sendo julgado não é só Suzane; o que está sendo julgado é o Estado de Direto, é uma sociedade localizada, que tem que saber viver dentro de uma nova orientação. E quando o Direito passa a ser utilizado dessa forma, transmite-se uma insegurança muito grande à população.

Repórter:- Para finalizar: _ O senhor acredita mais na culpa ou na inocência de Suzane?

Jorge Forbes:- Como psicanalista não posso dizer se acredito mais na culpa ou na inocência de Suzane. Principalmente porque não conheço Suzane; seria de uma irresponsabilidade absoluta de minha parte falar de uma pessoa que nunca vi. O que acho e já disse, é que não vejo, de tudo que li e vi sobre Suzane, que ela não seja responsável. Eu a acho uma pessoa responsável.

Teresa Genesini
Colaboração de Rodrigo Abrantes