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As Duas Empatias

Jorge Forbes

 

Vivemos um tempo em que a empatia se tornou um imperativo moral. Empresas a exigem, escolas a promovem, relações a reivindicam. Ser empático passou a equivaler, quase automaticamente, a ser bom.

Mas talvez seja necessário introduzir uma distinção.

Há uma empatia que consiste em sentir o mesmo que o outro. Diante de alguém que sofre, dizemos: “sei exatamente como você se sente”. Essa forma é rápida, reconfortante, e socialmente valorizada. Ela aproxima — mas o faz por um caminho particular: reduzindo o outro ao que já conhecemos em nós.

Nesse movimento, o outro deixa de ser outro. Torna-se um espelho.

Essa empatia, fundada na identificação, opera no registro do sentido. Ela traduz o sofrimento do outro em categorias familiares, domesticando sua estranheza. É eficaz para consolar, mas tende a apagar aquilo que, no outro, não coincide conosco.

Há, porém, uma segunda forma de empatia — menos evidente, mais rara e mais exigente.

Não se trata de sentir o mesmo, mas de interessar-se pelo que no outro não é redutível ao já conhecido. Em vez de afirmar “eu sei”, essa empatia sustenta um “não sei — e é precisamente isso que me importa”.

Ela não elimina a distância; ela a habita.

Aqui, o outro não é espelho, mas enigma. E a relação não se funda na identificação, mas na abertura ao que escapa ao sentido.

Essa segunda empatia não tranquiliza. Ao contrário, ela inquieta. Exige suportar a incompreensão parcial, renunciar à pressa de traduzir, aceitar que há no outro algo que não se deixa apreender inteiramente.

Mas é justamente aí que reside sua dimensão ética.

Pois, ao não reduzir o outro ao mesmo, ela preserva sua singularidade. Ao não fechar o sentido, ela mantém aberta a possibilidade de invenção.

Em um mundo cada vez mais orientado por protocolos de compreensão — onde algoritmos antecipam gostos, respostas e comportamentos — essa forma de empatia se torna ainda mais necessária. Ela resiste à tentação de tornar tudo previsível, legível, equivalente.

Se a primeira empatia pertence ao conforto do reconhecimento, a segunda pertence ao risco do encontro.

E talvez possamos dizer:

a primeira consola,

a segunda convoca.

Num tempo em que tanto se fala em propósito — isto é, em direção previamente traçada — essa segunda empatia se aproxima mais do entusiasmo: não como identificação com um sentido dado, mas como abertura ao que pode surgir do encontro com o outro.

Ser empático, então, não seria apenas compreender.

Seria, antes, sustentar o ponto em que o outro escapa à compreensão —

sem, por isso, deixar de se dirigir a ele.