/O homem que não tem medo da máquina – Entrevista ao Estadão

Estado de São Paulo/
Cultura & Comportamento/
Alice Ferraz/
Entrevista. Jorge Forbes/ 26 de abril de 2026

 

 

O HOMEM QUE NÃO TEM MEDO DA MÁQUINA

Para psicanalista, pânico em torno da inteligência artificial diz mais sobre nós do que sobre ela.

Existe uma cena que Jorge Forbes usa para explicar o estado de espírito do mundo ocidental diante da inteligência artificial. Estamos em 1510, na Bahia. O português Diogo Álvares Correia chega à praia, os Tupinambás nunca viram uma arma de fogo, ele dispara um tiro para o alto e os índios entram em colapso. Caramuru, gritam. O homem-trovão. O incompreensível virou mito, o medo virou narrativa. “A inteligência artificial está sendo vista como uma espécie de rifle do Caramuru”, diz ele, fazendo um paralelo. “Existem muitos medos objetivos, mas se perguntarem se eu tenho medo que a IA ultrapasse o humano? Não, não tenho medo.”

Psiquiatra, doutor em teoria psicanalítica pela UFRJ e em ciências pela USP, mestre em psicanálise pela Universidade Paris VIII — onde seguiu os seminários de Jacques Lacan —, Forbes passou os últimos 30 anos pesquisando os efeitos da tecnologia sobre a subjetividade humana. E vai falar sobre tudo isso no São Paulo Innovation Week, que acontece em maio no Pacaembu.

Forbes antecipou, em entrevista à Coluna, a tese provocadora que levará ao evento: não, a inteligência artificial não ultrapassará o humano. Não lhe falta poder, mas a IA não chega aonde o humano mora de verdade. Para explicar, Forbes encontra Freud. “Nós não temos no inconsciente a representação da morte. Temos a representação da vida. Aqueles que morreram não nos explicaram até hoje o que é a morte. Então, tudo que é muito estranho ao que estamos acostumados a viver, colocamos numa gaveta e escrevemos: ‘morte’. É o que acontece com a IA.”

O medo, segundo ele, é amplificado pelo fato de que os próprios criadores da inteligência artificial já emitiram alertas públicos sobre seus riscos — o que, em vez de informar, alimentou o pânico. Ele reconhece o medo concreto, o das demissões, o da automação. “Vai tirar muito emprego também, vai criar outros. Isso é verdade.” Mas distingue esse medo pragmático do existencial. “A nossa essência não é substituível porque ela não é plena. A nossa essência é vazia, incompleta.”

Para explicar, ele recorre a uma piada… que não é bem uma piada: “Eu poderia sintetizar dizendo que vaca não faz análise. A vaca não faz análise porque está completa. Não tem dúvida. Existe uma relação direta entre sua expressão e seu código genético. Nós, não”, diz. “Desejo é uma expressão de que alguma coisa falta. Para quem não falta nada, não tem desejo. Vaca tem fome, mas não tem apetite. Não somos seres da necessidade, somos seres do desejo.” A inteligência artificial pode ser treinada em todo o conhecimento humano registrado. Pode resolver equações, compor músicas, redigir contratos, diagnosticar doenças. Mas o desejo é o que escapa ao algoritmo. Como ele diz: “Tudo aquilo que é contabilizável na nossa vida, que é explicável na nossa vida, poderá ter um tratamento pela inteligência artificial e virar um algoritmo. Mas a nossa essência é uma essência vazia.”

Forbes vem da medicina. E quando fala sobre cientistas que se tornam gurus da catástrofe tecnológica, fala de dentro. Para ele, há uma confusão perigosa entre o discurso científico e o político. “Para fazer uma bomba atômica, você usa o discurso científico. Para lançá-la, não tem nenhuma razão científica. A ciência não se justifica pela ciência. A justificativa da ciência é política e não científica.”

O problema, segundo ele, tem raiz na formação dos cientistas: “A falta de formação literária, filosófica, psicanalítica, antropológica, nos cursos de ciência colabora para uma boa ciência e para um péssimo uso da ciência, devido a uma ignorância das humanidades absurda. É triste ver que bons cientistas podem se transformar em péssimos gurus só porque dizem ‘cientificamente’. E é grave”. É aqui que o Brasil entra. Forbes defende que vivemos numa época em que o laço social deixou de ser vertical — com padrões únicos de certo e errado e uma hierarquia social rígida — e passou a ser múltiplo, variável, sem garantias.

“A internet horizontalizou o laço social, temos hoje múltiplos padrões e nenhuma certeza e o brasileiro já sabia viver assim muito antes de o resto do mundo perceber que precisava aprender”, diz. A intimidade imediata, o primeiro nome, o diminutivo que transforma o que seria invasivo em afeto. “Nós suportamos muito bem a criatividade, a mudança, a falta de certeza. Nos chamaram de cachorro vira-lata, mas vira-lata para nós é uma qualidade. É a qualidade da variação, da criação, de estar junto.”

Para finalizar, Forbes cita o italiano Domenico De Masi, que, depois de anos pesquisando as estruturas do laço social ao longo dos séculos, chegou à mesma conclusão.

De Masi, então, perguntava: que país consegue colocar 5 mil pessoas no meio de uma rua, chega alguém que faz um apito e a esse apito essas 5 mil pessoas saem dançando no mesmo ritmo? O brasileiro. “Somos pós-modernos antes da hora. E sabemos viver muito bem nesse solo instável”, conclui.

Domingo, 26 de abril de 2026