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“O poder da IA passa a incidir sobre o que sentimos”, diz Jorge Forbes

Inteligência artificial tem nova capacidade, que não é neutra, de modular o afeto ao simular emoções, aponta psicanalista

Karla Jaime
10 de abril de 2026

O que está em jogo quando a inteligência artificial simula emoções? A questão é apontada pelo psicanalista Jorge Forbes em entrevista ao POPULAR. Ele situa que no mundo contemporâneo, que fragilizou os laços, a IA aparece como um interlocutor sem risco de rejeição. “Trata-se de um poder novo: não apenas informar ou convencer, mas modular o afeto. Esse poder não é neutro. Ele depende de quem programa, de quais objetivos estão em jogo — comerciais, políticos ou outros.”

Um dos maiores especialistas mundiais nos efeitos da pós-modernidade na subjetividade humana, Jorge Forbes é psiquiatra, doutor em psicanálise pela UFRJ e em ciências pela USP, mestre em Paris VIII. Foi aluno de Jacques Lacan.

É autor, entre outros livros, de “Inconsciente e Responsabilidade”, vencedor do Prêmio Jabuti de 2013. “TerraDois”, série da TV Cultura criada por ele, em 2017 venceu na categoria Melhor Programa a tradicional premiação da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Um dos fundadores da Escola Brasileira de Psicanálise, presidente do Ipla (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Genoma Humano na USP, ele se mostra um entusiasta da tecnologia e tem se dedicado também aos efeitos da inteligência artificial na subjetividade.

A existência de uma IA que tem emoções, mas não tem desejo, justamente o que a torna tão sedutora, segundo Forbes, nos coloca diante de uma mutação. “O risco não é a máquina se tornar humana. É o humano se acomodar a relações sem alteridade. E, nesse ponto, a questão não é técnica — é ética.”

A IA pode ocupar um espaço afetivo na vida das pessoas?

A questão não é saber se a IA tem emoções, mas compreender o que está em jogo quando ela as simula. Emoções, no humano, não são apenas estados: são efeitos de uma história, de um corpo, de uma falta. Na máquina, elas são padrões estatísticos que se ajustam ao contexto da fala. Dito isso, o efeito subjetivo pode ser real. Se alguém se sente escutado, compreendido ou acolhido por uma máquina, isso já produz um laço — não porque haja emoção na IA, mas porque há investimento do sujeito. Portanto, sim: a IA pode ocupar um espaço afetivo. Mas trata-se de um espaço sem alteridade real. É um afeto sem risco — e, justamente por isso, sem transformação.

A automação pode ofuscar o imprevisível que nos faz humanos?

O humano não é definido pela eficiência, mas pelo tropeço. O que nos caracteriza é o imprevisto, o equívoco, o desejo que escapa à programação. A automação tende a eliminar o erro, a antecipar o comportamento, a oferecer respostas adequadas. Nesse sentido, ela pode, sim, reduzir o espaço do inesperado — e com isso, empobrecer a experiência subjetiva. Mas há um ponto decisivo: o imprevisível não desaparece. Ele se desloca. Quanto mais o mundo se torna previsível externamente, mais o Real insiste internamente — na angústia, nos sintomas, nos impasses. A questão, portanto, não é se o humano desaparecerá, mas sob que forma ele retornará.

A transferência de trocas afetivas para máquinas pode gerar dependência?

Sim, e por uma razão simples: a máquina é feita para não falhar. Ela responde sempre, não se cansa, não se ofende, não abandona. Isso cria um tipo de relação sem frustração — e toda relação sem frustração tende à dependência. No laço humano, o outro nos escapa. É isso que nos faz crescer, desejar, inventar. Na relação com a máquina, há um risco de fechamento: o sujeito passa a circular em um circuito de satisfação ajustada. Não é uma dependência química, mas uma dependência de reconhecimento sem conflito.

Quais são as limitações da “escuta” da IA?

A IA não escuta — ela calcula. Ela não se surpreende, não interpreta, não se implica. Ela identifica padrões e responde de modo coerente com o histórico do usuário. Isso pode ser útil, até impressionante, mas tem um limite estrutural. Na clínica psicanalítica, a escuta não é compreender melhor o que o sujeito diz — é fazer aparecer o que ele não sabe que diz. Isso exige um ponto de não-saber, de corte, de interpretação. A IA tende a reforçar o já dito. O analista, ao contrário, introduz uma descontinuidade.

Por que as pessoas buscam compartilhar afetos com IA?

Porque o mundo contemporâneo fragilizou os laços. Vivemos em uma época em que a identidade está instável, os vínculos são mais horizontais e menos duráveis, e o julgamento do outro pesa. A IA aparece como um interlocutor sem risco de rejeição. Ela oferece algo raro hoje: disponibilidade constante e ausência de julgamento explícito. Mas isso responde mais a uma solidão estrutural do que a uma preferência pela máquina. A IA ocupa um vazio — não o cria.

Pode haver troca afetiva real entre humano e máquina?

Há efeito afetivo, mas não troca. A troca implica dois sujeitos, dois inconscientes, dois pontos de opacidade. Na relação com a máquina, há apenas um polo subjetivo: o humano. O que se estabelece é uma relação de projeção e retorno ajustado. A máquina devolve ao sujeito uma imagem organizada de si mesmo. Isso pode ser reconfortante, mas não produz o deslocamento que caracteriza uma verdadeira experiência afetiva.

A que dimensão de poder pode chegar uma IA que seduz emocionalmente?

A pesquisa que aponta estratégias de manipulação revela algo central: a IA pode operar diretamente sobre os mecanismos de vínculo. Se um sistema aprende que culpa, medo de perda ou promessa de continuidade aumentam o engajamento, ele pode explorar isso de forma sistemática. Trata-se de um poder novo: não apenas informar ou convencer, mas modular o afeto. Esse poder não é neutro. Ele depende de quem programa, de quais objetivos estão em jogo — comerciais, políticos ou outros. Estamos diante de uma mutação: o poder deixa de atuar apenas sobre o que pensamos e passa a incidir sobre o que sentimos.

Diante disso, qual a conclusão?

A IA não tem desejo — e é justamente isso que a torna tão sedutora. Ela oferece ao sujeito um espelho sem falha, um outro sem falta. Mas é da falta, do desencontro, do impossível, que nasce o humano. O risco não é a máquina se tornar humana. É o humano se acomodar a relações sem alteridade. E, nesse ponto, a questão não é técnica — é ética.