/Propósito, Legado, Sonho, Empatia: falsas soluções para uma época desorientada

Propósito, Legado, Sonho, Empatia: falsas soluções para uma época desorientada

Jorge Forbes

 

Há palavras que, em determinada época, deixam de apenas descrever o mundo para funcionar como remédios morais. Hoje, quatro delas ocupam esse lugar: propósito, legado, sonho e empatia. São palavras belas, aparentemente elevadas, mas que frequentemente operam como falsas soluções para o desbussolamento contemporâneo.

O propósito promete ao sujeito uma direção pronta. Em vez de sustentar a abertura inquietante da existência humana, oferece uma missão. A vida passa então a valer como cumprimento de uma função, quase como se cada um tivesse nascido para realizar um programa oculto. O preço dessa segurança é alto: perde-se a invenção singular do desejo.

O legado desloca a vida para depois da vida. A preocupação deixa de ser o ato presente para tornar-se a administração da própria memória futura. O sujeito transforma-se em gestor da imagem que sobreviverá à sua ausência. Há aí menos desejo do que cálculo de permanência.

O sonho, por sua vez, virou palavra motivacional. Não mais a via régia ao inconsciente freudiano, mas um imperativo de realização pessoal. “Siga seus sonhos” tornou-se uma forma elegante de mandar todos desejarem da mesma maneira. O sonho perde sua estranheza para virar projeto de desempenho.

E a empatia, frequentemente celebrada como virtude máxima, muitas vezes reduz o outro ao semelhante. Quer compreender rápido demais, identificar-se rápido demais, sentir “o mesmo”. Ora, o encontro humano não se funda apenas na identificação, mas também na opacidade irreduzível do desejo do outro.

Essas quatro palavras têm algo em comum: procuram generalizar a experiência humana. Funcionam como bússolas universais num mundo em que as antigas referências perderam consistência. Mas justamente aí reside o problema. O humano talvez não tenha um propósito comum, um legado obrigatório, um sonho padronizado nem uma empatia garantida. O que ele tem é a singularidade do desejo — sempre parcial, incompleto, não universalizável.

Talvez o desafio contemporâneo não seja reencontrar uma bússola coletiva, mas aprender a viver sem garantias absolutas, fazendo dessa incompletude não um defeito a corrigir, mas a condição mesma da invenção humana.

 

São Paulo, maio de 2026