Jorge Forbes
Vivemos em uma época fascinada pela previsão. Nunca dispusemos de tantos dados, tantos cálculos, tantos instrumentos capazes de antecipar comportamentos, tendências e cenários futuros. A ciência aperfeiçoa suas projeções, os algoritmos refinam suas estimativas e a inteligência artificial amplia, dia após dia, nossa capacidade de calcular probabilidades.
No entanto, por mais sofisticadas que sejam as previsões, elas não esgotam a experiência humana. Há momentos em que a história de uma pessoa, de uma sociedade ou mesmo de uma nação muda não porque alguém previu corretamente o futuro, mas porque alguém decidiu agir quando o futuro ainda era incerto.
Uma figura conhecida que ilustra essa diferença é Charles de Gaulle, em junho de 1940.
A França está derrotada. O exército desorganizado. O governo rendido. A opinião pública desmoralizada. Todos os cálculos apontam na mesma direção: a guerra acabou. Nesse cenário, um general pouco conhecido atravessa o Canal da Mancha e faz um apelo aos franceses para que continuem lutando.
Visto retrospectivamente, o gesto parece evidente. A posteridade transformou o Apelo de 18 de Junho em um dos grandes momentos da História. Mas, naquele instante, ele estava longe de ser evidente. Era quase absurdo. De Gaulle não possuía um exército, uma legitimidade institucional ou uma força política capaz de sustentar sua posição. Estava praticamente sozinho.
É justamente aí que reside seu interesse. De Gaulle não age porque sabe. Ele age porque decide.
Essa distinção é fundamental. O saber pertence ao campo da previsão. A previsão prolonga o presente em direção ao futuro. Quanto mais informações possuímos, mais refinadas tendem a ser nossas previsões. A ciência, a estatística e, hoje, a inteligência artificial são extraordinariamente poderosas nesse domínio.
A decisão, porém, é de outra natureza. Ela introduz algo que não estava contido nas informações disponíveis. Nenhum cálculo pode deduzir completamente o ato pelo qual um sujeito decide sustentar uma orientação quando todas as probabilidades lhe são desfavoráveis.
De Gaulle continua, assim, extraordinariamente atual. Vivemos em uma época fascinada pela capacidade de prever. Os algoritmos antecipam comportamentos, identificam tendências e calculam probabilidades com uma eficácia impressionante. Mas a história humana continua sendo atravessada por algo que escapa ao cálculo: a decisão.
Em junho de 1940, os especialistas estavam mais bem informados do que De Gaulle sobre a situação militar. O que ele possuía não era um conhecimento suplementar. Era uma relação singular com o impossível.
Frequentemente se diz que ele era um homem de vontade. A expressão é correta, mas insuficiente. A vontade opera sobre o possível. Ela procura realizar aquilo que parece alcançável. De Gaulle situa-se em outro registro. Ele age sem que existam ainda as condições que tornariam sua ação razoável.
Por isso sua atitude não se reduz ao heroísmo. Muitos homens corajosos aceitaram o inevitável. De Gaulle faz outra coisa: ele reconhece a catástrofe, mas se recusa a transformá-la em destino. Ele não nega os fatos; recusa apenas que os fatos tenham a última palavra.
Essa posição permite distinguir três maneiras de enfrentar a incerteza. O pessimista vê os obstáculos e conclui pela impossibilidade. O otimista vê os mesmos obstáculos e espera que eles desapareçam. O homem da decisão vê os obstáculos e age apesar deles.
De Gaulle não era otimista nem pessimista. Era decidido.
Sua figura ultrapassa o campo da política e toca uma questão universal: o que faz um sujeito quando já não pode apoiar-se nem na tradição, nem no consenso, nem em referências asseguradas?
A psicanálise encontra-se diante da mesma pergunta. Em certos momentos de uma análise, chega-se a um ponto em que nenhuma regra geral pode dizer ao sujeito o que fazer. Não existe manual. Não existe fundamento seguro. Existe apenas a responsabilidade de uma escolha.
Nesse sentido, a trajetória de De Gaulle aproxima-se mais da ética do que da estratégia. Ele não procura ter razão contra os outros. Procura responder ao que considera ser sua responsabilidade.
Prefiro falar de entusiasmo e não de motivação. A motivação precisa de razões para existir. O entusiasmo pode atravessar sua ausência. Ele não elimina a dúvida; permite continuar apesar dela.
Poderíamos dizer:
O otimismo aposta nas circunstâncias. O entusiasmo aposta no ato.
A grande lição de junho de 1940 é que a História não é feita apenas por determinações. Ela é feita também por decisões. Há momentos em que um homem, uma mulher, um criador, um analisante ou um estadista introduz uma descontinuidade e obriga o mundo a reorganizar-se em torno dela.
Por isso De Gaulle permanece contemporâneo. Não porque tenha previsto corretamente o futuro, mas porque nos lembra de algo essencial: o futuro não é apenas aquilo que se prevê. Às vezes, ele é aquilo que se cria.
Tudo isso se condensado em uma única frase: O cálculo prevê. O desejo inventa.
Mas ainda seria pouco.
Certas figuras históricas continuam a nos tocar muito depois de desaparecidas. Não porque nos ensinem o que pensar, nem porque forneçam modelos a serem imitados, mas porque tornam visível uma dimensão essencial da experiência humana: a capacidade de decidir quando os apoios habituais faltam.
A maioria de nós prefere imaginar que as grandes decisões decorrem de evidências claras. Gostaríamos de acreditar que primeiro vem a certeza e depois a ação. A experiência, contudo, ensina justamente o contrário. Os momentos decisivos de uma existência são frequentemente aqueles em que o sujeito precisa agir sem dispor de todas as razões, sem conhecer todas as consequências e sem poder assegurar-se de que está no caminho correto.
Não é sua infalibilidade que nos impressiona. Não porque tenham sido infalíveis, mas porque aceitaram sustentar uma orientação quando o futuro ainda era opaco. Elas nos lembram que a vida humana não se reduz à adaptação ao que existe. Há momentos em que é preciso introduzir algo novo, algo que não estava contido na situação anterior.
Nesse sentido, De Gaulle não é apenas um personagem da História da França. Ele encarna uma possibilidade presente em toda existência: a de não se deixar definir inteiramente pelas circunstâncias. Em junho de 1940, tudo parecia falar em nome da derrota. Sua singularidade consistiu em não permitir que a derrota se transformasse em destino.
É precisamente isso que a psicanálise procura alcançar quando conduz alguém até o ponto de sua responsabilidade. Não se trata de descobrir uma verdade escondida que diria ao sujeito o que fazer. Trata-se de chegar ao ponto em que ele possa responder por sua posição sem apoiar-se integralmente em referências externas.
É nesse momento que a decisão deixa de ser um cálculo e se torna um ato.
E é também nesse ponto que o entusiasmo adquire seu verdadeiro sentido. Não como euforia, nem como otimismo ingênuo, mas como a disposição de sustentar uma orientação mesmo quando não há certeza de êxito. O entusiasmo não nasce da certeza; nasce da responsabilidade.
Podemos então compreender por que algumas palavras atravessam os séculos. Elas não descrevem apenas um mundo. Elas inauguram um mundo. Elas tornam possível aquilo que, até então, parecia impossível.
Não foi porque De Gaulle conheceu o futuro que ele mudou a História. Foi porque aceitou responder por ela quando o futuro ainda era desconhecido.
Essa é a lição preciosa que sua figura continua a transmitir: o caminho não aparece primeiro para que possamos segui-lo. Muitas vezes, é o passo que faz surgir o caminho.
É nesse intervalo entre a previsão e a invenção que se joga a aventura humana.